CIDADANIA ONLINE
Daniela da Silva lança ONG de denúncias contra gigantes digitais
Após deixar a Meta, ex-chefe do WhatsApp cria plataforma para proteger direitos e dados de usuários, com foco na responsabilização.
Uma importante iniciativa em defesa dos direitos digitais no Brasil acaba de ganhar forma nesta terça-feira, 05/05/2026. A jornalista Daniela da Silva, ex-diretora de políticas públicas do WhatsApp no Brasil, e sua colega Tatiana Dias fundaram a ONG CTRL+Z. O objetivo é oferecer suporte jurídico gratuito e um canal seguro para denúncias de usuários e até de funcionários contra práticas abusivas das gigantes da tecnologia, marcando um novo capítulo na busca por responsabilização dessas empresas. A criação da entidade reflete uma crescente preocupação com o impacto das big techs na dignidade e nos direitos individuais, diante da percepção de uma lacuna na defesa dos cidadãos no ambiente digital.
A CTRL+Z permite que usuários que enfrentaram problemas com plataformas como Instagram, Facebook, Google e X registrem seus casos e recebam apoio de advogados sem custo. A iniciativa também abre espaço para que funcionários dessas corporações façam denúncias e revelem práticas que ainda não vieram a público, fortalecendo a transparência e a ética no setor.
As 'big techs', termo em inglês que se refere às grandes empresas de tecnologia como Apple, Amazon, Google, Microsoft e Meta (que engloba Facebook, Instagram e WhatsApp), dominam o mercado digital, concentram milhões de usuários e estão entre as maiores empresas do mundo. Sua influência massiva impõe desafios significativos à proteção de dados e direitos online.
Por enquanto, a iniciativa está em fase de testes, o que significa que o tempo de resposta e suporte aos casos pode levar um período maior, segundo as responsáveis pela ONG, as jornalistas Tatiana Dias e Daniela da Silva.
Daniela da Silva, que era chefe de políticas públicas do WhatsApp no Brasil, deixou a Meta no início de 2025, após Mark Zuckerberg anunciar o fim do programa de checagem de fatos na companhia. Em uma conversa com a reportagem, ela afirmou que o principal objetivo da CTRL+Z é criar uma cultura de responsabilização das big techs. "Já surgiram ofertas. Começamos a receber várias mensagens de escritórios de advocacia interessados em fechar parceria", destacou.
Como funciona a denúncia
É possível fazer uma denúncia gratuitamente pelo site oficial da ONG (https://ctrlz.org.br/add/). As vítimas podem relatar uma vasta gama de problemas, como encerramento de conta sem aviso prévio, perfis falsos, vazamento de dados pessoais, bloqueios temporários injustificados ou perda de acesso em situações de conta hackeada. Esses incidentes, que frequentemente deixam os usuários desamparados, agora têm um canal de suporte dedicado.
Daniela citou como exemplo o caso de uma pessoa que teve uma conta do Google, utilizada há 20 anos, suspensa de forma equivocada, sob suspeita de uso de imagem de exploração infantil. Devido ao login único da empresa, a suspensão da conta principal pode levar à perda de acesso a diversas plataformas e ferramentas essenciais. "Além dos prejuízos financeiros, pois muita atividade econômica hoje está diretamente ligada a essa presença online", afirmou. Graças à atuação da ONG, o acesso foi recuperado, demonstrando o impacto real do trabalho da CTRL+Z.
- Para denunciar, no site oficial, um formulário exige que as vítimas informem o nome da plataforma e descrevam o problema, detalhando o ocorrido, se houve contato com a empresa e se obtiveram respostas.
- Também é possível anexar provas e fornecer dados pessoais, como nome, cidade e e-mail. Ao final, o denunciante pode indicar se autoriza o contato de um advogado para tirar dúvidas e prestar auxílio, além de decidir se permite ou não a divulgação pública do caso.
As fundadoras da ONG optaram por não usar formulários de big techs, como Google Forms e Microsoft Forms, para impedir que essas empresas tenham acesso ao conteúdo das denúncias. Por isso, a plataforma utiliza um sistema com criptografia de ponta a ponta, uma camada de proteção em que apenas remetente e destinatário conseguem acessar as informações enviadas, garantindo maior segurança e privacidade aos denunciantes.
Já o programa #VazaBigTech foi criado para incentivar funcionários de big techs a denunciar casos de interesse público. Embora a plataforma possa ser acessada por navegadores comuns, as fundadoras destacam que o nível máximo de segurança e anonimato só é garantido com o uso do navegador Tor, que dificulta o rastreamento na internet. O objetivo é reunir relatos, documentos e informações sobre decisões consideradas arbitrárias ou negligências com potencial interesse público.
Tatiana Dias afirma que a ferramenta permite o envio de denúncias anônimas. Nesse caso, "nem a gente tem como saber quem é", diz, ressaltando que a identidade da fonte permanece protegida, fundamental para a segurança dos colaboradores que buscam expor irregularidades.
A motivação: saída de Daniela da Meta
Daniela da Silva deixou a Meta em fevereiro de 2025, onde atuou como diretora de políticas públicas do WhatsApp no Brasil entre fevereiro de 2024 e fevereiro de 2025. Sua saída ocorreu após Mark Zuckerberg anunciar, em um vídeo, o fim da checagem de fatos nos EUA. Na ocasião, o executivo também declarou que a Meta passaria a pressionar governos, em parceria com a administração Trump, contra o que classificou como tentativas de censura a companhias americanas.
À reportagem, Daniela confessou que já havia sinais de aproximação da Meta com o governo Trump, mas a forma como isso se concretizou internamente, por meio do vídeo de Zuckerberg, foi uma surpresa. Ela soube da mudança "junto com todo mundo", ou no máximo uma hora antes da divulgação ao público.
A brasileira expôs sua indignação em uma publicação no LinkedIn, onde também anunciou sua demissão. "A velocidade e a intensidade dessa virada retórica da Meta, e a adesão a uma base ideológica tão distinta dos valores que orientavam meu o trabalho até então (pensando nas medidas de integridade e segurança implementadas no WhatsApp nos últimos anos), isso simplesmente não é algo que eu possa compreender, muito menos apoiar", escreveu ela na rede social.
Ela também revelou que a decisão de deixar a Meta e criar uma ONG foi motivada pela percepção de que há insatisfação e preocupação entre muitos funcionários das big techs, que "pensam diferente do que a companhia defende", buscando um canal para que essas vozes sejam ouvidas e protegidas.
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