DEFESA NACIONAL EM XEQUE

Dados revelam falhas na estratégia de defesa do Brasil ao longo de décadas

Cargueiro KC-390 da Embraer, fabricado na América do Sul.
Cargueiro KC-390 da Embraer, um dos destaques do catálogo de defesa brasileiro.

Pesquisa analisa mais de 30 anos de investimentos e aponta inconsistências orçamentárias e descontinuidade de projetos, comprometendo o desenvolvimento econômico e a influência geopolítica do país.

Uma análise aprofundada sobre a estratégia de defesa do Brasil, abrangendo o período de 1985 a 2022, revela um padrão persistente de falhas que compromete tanto o desenvolvimento econômico quanto a projeção internacional do país. A pesquisa, conduzida por David Gonçalves Borges, demonstra que, ao longo de quase quatro décadas, governos sucessivos trataram os gastos militares não apenas como uma questão de segurança, mas como uma aposta no crescimento econômico e na expansão da influência global brasileira. No entanto, a evidência disponível sugere que essa estratégia raramente atingiu seus objetivos prometidos.

Embora pesquisas internacionais apontem que gastos militares podem estimular a produção industrial, eles frequentemente resultam na redução de investimentos em outros setores, o que, a longo prazo, pode frear o crescimento econômico. Os benefícios, quando ocorrem, dependem crucialmente da capacidade de converter tecnologia militar em aplicações civis. Países como o Brasil, com significativa dependência de tecnologia importada, enfrentam maiores dificuldades nesse aspecto, limitando o impacto econômico positivo.

Cargueiro KC-390 da Embraer, o maior fabricado na América do Sul.
KC-390, da Embraer, é um dos destaques do catálogo; cargueiro é o maior já fabricado na América do Sul
Selo da Agência The Conversation.
Conteúdo publicado originalmente pela Agência The Conversation.

O histórico orçamentário militar brasileiro entre 1985 e 2022 é marcado por uma acentuada instabilidade. Houve períodos de expansão, especialmente entre meados dos anos 1990 e o início da década de 2010, intercalados por quedas abruptas, como no início dos anos 1990 e entre 2019 e 2021. Mesmo nos momentos de aumento absoluto dos gastos, sua proporção em relação ao PIB permaneceu estagnada ou até diminuiu em diversos períodos. Essa instabilidade é particularmente notória em períodos como o governo de Fernando Collor e o governo de Jair Bolsonaro, quando os investimentos em defesa sofreram retrações significativas.

Projetos militares, por sua natureza, exigem décadas de investimento contínuo. A falta de previsibilidade orçamentária torna essas iniciativas intrinsecamente frágeis, comprometendo a execução e a conclusão de programas estratégicos que começaram a ser delineados desde a redemocratização. Iniciativas como o Projeto Calha Norte na década de 1980, que visava a integração regional e a presença militar na Amazônia, e os avanços nos programas nuclear e espacial, foram afetadas por cortes orçamentários severos nas décadas subsequentes, comprometendo até mesmo as operações básicas das forças armadas.

Nos anos 2000, observou-se uma retomada mais ambiciosa com projetos como o Prosub (submarinos), o FX-2 (caças) e a modernização do Exército. Estes foram apresentados como instrumentos de desenvolvimento tecnológico e industrial, prometendo reduzir a dependência externa e aumentar a autonomia estratégica. Contudo, na prática, muitos desses projetos enfrentaram adiamentos, reformulações ou foram apenas parcialmente executados.

A ambição geopolítica também esteve ligada aos investimentos em defesa, com o conceito de um “entorno estratégico” – que abrange América do Sul, África Subsaariana e Atlântico Sul – ganhando força a partir dos anos 2000. A capacidade militar foi vista como um suporte à política externa. Essa estratégia, porém, também demanda consistência, algo que o histórico brasileiro não demonstra, com mudanças de governo, crises econômicas e reorientações diplomáticas frequentemente interrompendo ou redefinindo prioridades.

Em suma, os dados coletados entre 1985 e 2022 indicam que praticamente todos os governos brasileiros apostaram na capacidade do setor de defesa de impulsionar a economia e ampliar o peso geopolítico. Essa aposta, contudo, esbarrou em três limites recorrentes: falta de previsibilidade orçamentária, descontinuidade de políticas públicas e instabilidade política interna. O resultado é uma sucessão de projetos incompletos e objetivos apenas parcialmente alcançados.

Investir em defesa é fundamental para a autonomia estratégica de um país. No entanto, a continuidade e uma estratégia estatal de longo prazo são essenciais para que a defesa cumpra seu papel, tanto econômico quanto geopolítico. Em um mundo cada vez mais volátil e propenso a conflitos, a falta de consistência na estratégia de defesa brasileira tem se mostrado uma vulnerabilidade perigosa, constituindo a regra, e não a exceção, nos últimos quase 40 anos.

Este texto foi publicado originalmente pela Agência The Conversation, em 11 de maio de 2026. O conteúdo é livre para republicação, citada a fonte, e foi adaptado para o padrão do Poder360.

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