BRASIL CAI NO RANKING

Custo de capital pesa sobre competitividade no Brasil, afirma especialista Carla Beni

Retrato de Carla Beni em ambiente profissional.
Carla Beni, especialista em economia e professora da FGV, analisa o cenário competitivo brasileiro.

Especialista da FGV aponta alta taxa de juros como principal entrave para investimentos e para a melhora da posição do país em avaliação global de competitividade.

O Brasil registrou uma queda significativa de sete posições no Ranking Mundial de Competitividade, alcançando o 65º lugar entre 70 economias avaliadas, o pior desempenho recente. A análise, divulgada nesta domingo, 21/06/2026, foi conduzida por Carla Beni, professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e membro do Conselho Regional de Economia do Estado de São Paulo (Corecon-SP), em entrevista à CNN.

Carla Beni explicou que o ranking compara as nações com Singapura, que lidera a lista. "Nós tivemos pontos positivos, mas o ponto negativo pesou mais do que as melhoras", afirmou. O principal fator de preocupação apontado pela especialista foi o elevado custo de capital no país.

"O ponto pior tem a ver com o custo do capital, com a taxa de juros que dificulta investimentos e inclusive deixou o Brasil num patamar mais baixo em relação até às próprias empresas, porque as empresas estão investindo menos fruto do problema da elevada nossa taxa de juros", detalhou Beni. Essa condição afeta diretamente a capacidade das empresas de expandir e inovar, impactando a economia como um todo.

Fatores estruturais e a taxa Selic

Além do custo de capital, outros aspectos estruturais prejudicam a performance brasileira. Beni mencionou a baixa educação financeira e a limitada diversidade linguística como elementos que contribuem negativamente para o desempenho do Brasil no ranking.

No que tange à taxa Selic, a especialista identificou dois vetores que influenciam as projeções do mercado financeiro: a volatilidade do cenário internacional e a persistência da inflação interna. "Temos uma instabilidade muito grande no cenário externo", ponderou, citando declarações de líderes mundiais e a instabilidade geopolítica. Internamente, o Brasil enfrenta o desafio de possuir uma das maiores taxas de juros reais do mundo.

"Se você pegar a Selic e descontar a inflação, nós temos mais de 9% de taxa real de juros. Este é o ponto central que vai inviabilizando as empresas e as famílias, por isso que a gente está com esse grau de inadimplência no país todo", alertou, ressaltando o impacto direto na saúde financeira de famílias e negócios.

Boletim Focus e as perspectivas para os juros

Ao analisar as projeções do mercado, Beni comparou o Boletim Focus a um GPS, dada sua constante necessidade de revisão. Ela citou um estudo da FGV que aponta uma margem de erro de até 95% para o boletim nos últimos quatro anos. A expectativa corrente do mercado, segundo ela, é de que o Banco Central paute a continuidade dos cortes da taxa de juros ou mantenha reduções na magnitude de 0,25 ponto percentual. "Você imagina com o grau de endividamento e de inadimplência que temos hoje, continuar com uma taxa de juros a dois dígitos. Nós estamos com dois dígitos de taxa Selic desde 2022", observou. A especialista ainda lembrou que a Selic é eficaz contra a inflação de demanda, mas inoperante diante de causas de custo, inércia e expectativa.

Aspectos positivos do Brasil no ranking

Apesar do quadro geral desfavorável, Beni ressaltou pontos fortes identificados no levantamento. O investimento estrangeiro direto (IED) destacou-se como um atrativo: "O Brasil tem sido o segundo país que mais recebe investimentos nos últimos anos", registrou. Outros fatores positivos incluem o desempenho em energia renovável, a melhoria na atividade empreendedora inicial — com menor taxa de encerramento de empresas nos primeiros três anos — e o suporte de subsídios governamentais, área na qual o país figura em quinto lugar no ranking. "O motor de investimento é o setor público em qualquer lugar do mundo", concluiu Beni, reforçando a importância do papel estatal no fomento econômico.

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