FUTURO EM XEQUE
Crise: Volkswagen cogita abrir fábricas alemãs a chineses, diz jornal
Reportagem do Handelsblatt revela estudo que visa preservar empregos, mas gera debate sobre segurança e soberania industrial na Alemanha.
A Volkswagen, uma das maiores montadoras do mundo, avalia a possibilidade de ceder linhas de produção ociosas em suas fábricas alemãs para montadoras chinesas de veículos elétricos. A medida estratégica, em estudo desde 2024 e detalhada em reportagem do jornal alemão Handelsblatt nesta segunda-feira, 18 de maio de 2026, busca preservar dezenas de milhares de postos de trabalho e mitigar uma das maiores crises históricas da empresa, que enfrenta desafios na transição para veículos elétricos e uma queda de 44% no lucro líquido em 2025. A decisão, embora ainda não definitiva, reflete uma mudança profunda no cenário automotivo global e gera debates acalorados sobre economia, segurança e identidade nacional alemã.
Uma das plantas no foco dessa potencial colaboração é a de Zwickau, no estado da Saxônia, leste da Alemanha. Esta fábrica recebeu um investimento de 1,5 bilhão de euros em 2019, destinada exclusivamente à produção de carros elétricos. Contudo, nunca alcançou sua plena capacidade, e a proposta agora é que montadoras chinesas possam utilizar algumas de suas linhas de produção.
A ideia de abrir as portas para fabricantes da China tem ganhado apoio político. Semana passada, o secretário saxão de Economia, Dirk Panter, declarou que "a China é uma oportunidade" e que, "se vermos essa chance, devemos aproveitá-la". A posição encontra eco no governador do estado alemão da Baixa Saxônia, Olaf Lies, cuja influência é notável, já que o estado detém 20% das ações do grupo Volkswagen.
A situação da Volkswagen é um espelho de um dilema europeu. O jornal alemão Handelsblatt, que divulgou a reportagem inicial sobre o tema, ressalta que "por décadas, a Alemanha exportou sua tecnologia automotiva para a China; hoje, a indústria alemã discute trazer tecnologia e marcas chinesas para suas próprias fábricas. A razão: as fábricas alemãs e europeias já não operam com capacidade suficiente em muitos lugares, colocando em risco dezenas de milhares de empregos".
A montadora alemã tem enfrentado dificuldades na transição para a era dos carros elétricos, que avança mais lentamente do que o previsto. Simultaneamente, o mercado europeu assiste à entrada agressiva de montadoras chinesas, enquanto a produção local sofre com a política tarifária dos Estados Unidos e os elevados custos de energia e mão de obra no continente.
Para agravar o cenário, a Volkswagen registrou uma queda de 44% no lucro líquido em 2025 e anunciou um plano de reestruturação ambicioso, que prevê o corte de 50 mil postos de emprego na Alemanha até 2030, tudo com o objetivo de enxugar custos.
Conversas com a China ocorrem desde 2024, diz jornal
A reportagem do Handelsblatt desta segunda-feira, 18 de maio de 2026, revelou que as conversas com montadoras chinesas para a utilização das estruturas da Volkswagen já vêm ocorrendo desde 2024. Fontes internas anônimas citadas pelo periódico afirmam que foram discutidas colaborações com a SAIC, parceira estatal da Volkswagen na China, para a utilização de uma fábrica em Emden, no noroeste do país. No entanto, essas negociações não foram bem-sucedidas inicialmente.
A continuidade das operações em Emden e Zwickau foi questionada em 2024 pelo CEO da Volkswagen, Oliver Blume, que também apontou riscos para as fábricas de Hannover e Neckarsulm, da marca Audi.
Nesse contexto, o grupo analisa diversos cenários: desde a importação de mais tecnologia e modelos das operações chinesas da Volkswagen para a Europa até a disponibilização de sua capacidade ociosa para parceiros chineses, como a Xpeng, com a qual a VW já desenvolveu modelos conjuntos e detém uma participação de 5%.
Receio de espionagem industrial
A possibilidade de maior envolvimento chinês na indústria automotiva alemã não é unânime. Na última quarta-feira, 13 de maio de 2026, durante sessão na Assembleia estadual, o secretário de Economia da Saxônia defendeu o investimento chinês, mas membros de outros partidos alertaram para os riscos.
O deputado estadual Wolfram Günther foi enfático: "A China é um dos Estados mais agressivos do mundo quando se trata de espionagem. Vou dizer isso claramente. Não são segredos". Ele adicionou que as negociações entre Saxônia e Taiwan no setor de semicondutores poderiam complicar ainda mais a situação. "Isso também pode gerar grandes desafios, se a China continental tiver algum envolvimento aqui, pois sabemos o que está em jogo e quais são as linhas de conflito", complementou.
A líder da bancada do partido A Esquerda, Susanne Schaper, trouxe à tona o exemplo da SRW metalfloat, empresa de reciclagem sediada na Saxônia e controlada por acionistas chineses. "Trabalhadores e o sindicato relataram confrontos duros com o proprietário chinês. E falaram sobre a recusa ao diálogo e uma compreensão do trabalho que é incompatível com a nossa. Não podemos esquecer experiências como essas quando falamos de participação ou joint ventures", alertou Schaper.
O jornal Die Zeit capturou a essência do debate: "A ideia é provocadora: fábricas alemãs, trabalhadores alemães qualificados, tradição de engenharia alemã — mas marcas chinesas e tecnologia chinesa. O debate toca em um ponto nevrálgico, pois é mais do que apenas uma questão de política industrial; diz respeito também à imagem que a Alemanha tem de si como nação produtora de automóveis".
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