FINANÇAS EM CRISE
Correios registram prejuízo de R$ 3,4 bilhões no 1º trimestre
Valor quase dobra em um ano; Despesas financeiras e Remessa Conforme impactam balanço.
A Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, os Correios, registrou um prejuízo prévio de R$ 3,4 bilhões no primeiro trimestre de 2026, conforme dados de seu balancete contábil obtidos com exclusividade pelo g1 nesta terça-feira, 28 de abril de 2026. Este resultado, que quase dobrou em comparação ao mesmo período do ano anterior (R$ 1,7 bilhão), acende um alerta sobre a saúde financeira da estatal e o impacto nas suas operações e na qualidade dos serviços prestados à população.
Um balancete contábil é, em essência, um demonstrativo financeiro provisório que oferece uma visão instantânea das Receitas, Despesas, bens e dívidas de uma Empresa em um dado momento, geralmente ao fim de um mês ou trimestre.
Até a última atualização desta reportagem, a Empresa não havia divulgado oficialmente as informações contábeis. Os Correios esclareceram que as demonstrações referentes ao 1º trimestre de 2026 "ainda estão em processo de fechamento".
Enquanto as Receitas permaneceram praticamente estáveis até 31 de março de 2026, as Despesas subiram consideravelmente no mesmo período. As Receitas registraram R$ 4,1 bilhões em 2025 e R$ 4 bilhões em 2026; as Despesas, por sua vez, saltaram de R$ 6,4 bilhões em 2025 para R$ 7,4 bilhões em 2026.
Entretanto, esse aumento das Despesas já figurava nas projeções do departamento financeiro da estatal, que estimava gastos totais de R$ 7,6 bilhões para o primeiro trimestre de 2026. Isso representa uma economia de R$ 200 milhões, ou 3%, nos gastos reais em comparação com a estimativa inicial.
Perfil das Despesas
Nos gastos, a despesa com pessoal, um dos pontos críticos para a situação financeira dos Correios, manteve-se sob controle no primeiro trimestre de 2026. Os dados contábeis mostram que esses gastos ficaram estáveis, passando de R$ 2,5 bilhões no primeiro trimestre do ano passado para R$ 2,6 bilhões no mesmo período deste ano, um acréscimo de R$ 80 milhões.
O principal motor do aumento das Despesas foi o grupo de Despesas financeiras e provisões, que engloba possíveis perdas judiciais que podem se transformar em precatórios.
Um precatório é uma ordem de pagamento emitida pela Justiça, compelindo um ente público (município, estado ou a União – neste caso, uma Empresa estatal) a quitar uma dívida com uma pessoa física ou jurídica.
As Despesas financeiras apresentaram um aumento expressivo de 312%, saltando de R$ 224 milhões em 2025 para R$ 925 milhões em 2026. Este item inclui gastos com juros e multas relacionados a boletos, contratos e empréstimos, como os R$ 12 bilhões que a estatal captou no fim do ano passado, com projeção de um custo total de R$ 22,4 bilhões em juros.
As Despesas com provisões e perdas, por sua vez, superaram as expectativas. A estimativa inicial era de R$ 1,2 bilhão, mas o valor executado atingiu R$ 1,4 bilhão. Este montante também significa uma alta de 66,7% em relação às Despesas de 2025, que totalizaram R$ 834 milhões.
Perfil das Receitas
As Receitas provenientes da prestação de serviços e venda de produtos mantiveram-se quase estáveis, com uma leve redução de R$ 84 milhões na comparação entre o primeiro trimestre de 2025 e 2026. O maior impacto veio da queda nas Receitas com encomendas internacionais.
Até 31 de março de 2025, os Correios haviam registrado R$ 393 milhões neste tipo de Receita. Nos três primeiros meses de 2026, esse valor despencou para R$ 156 milhões, uma redução de R$ 237 milhões (60,3%) em comparação com o ano anterior.
Este desempenho reflete um movimento observado desde o lançamento do programa Remessa Conforme, em 2023, com a redução das Receitas ligada à diminuição dos serviços de transporte de encomendas internacionais. O programa Remessa Conforme instituiu a cobrança de imposto de importação de 20% sobre todas as compras internacionais de até US$ 50, antes isentas. A medida ficou popularmente conhecida como "taxa das blusinhas".
Em 2024, os Correios registraram R$ 3,9 bilhões em Receitas com encomendas internacionais, já com uma diminuição de R$ 530 milhões em relação a 2023. No ano seguinte, o valor caiu abruptamente para R$ 1,3 bilhão, uma perda de R$ 2,6 bilhões em comparação com 2024. Dessa forma, esta fonte de Receita, que em 2023 representava 22% do total, passou a contribuir com apenas 7,8%.
A estatal também registrou uma redução de 5,4% nas Receitas com encomendas gerais, o equivalente a R$ 128 milhões. Em contrapartida, houve um aumento significativo nas Receitas de outros serviços.
O principal destaque foi a área de logística, cujas Receitas saltaram de R$ 103 milhões para R$ 258 milhões em 2026, um crescimento de 150%. Em seguida, os serviços de conveniência avançaram 56%, passando de R$ 32,6 milhões para R$ 50,9 milhões. Também houve alta nas Receitas com malotes, de 19,2%, e com mensagens (geralmente cartas de comunicação entregues em domicílios), que cresceram 11,4%, ou R$ 124,8 milhões, saindo de R$ 1,1 bilhão para R$ 1,2 bilhão.
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