UNIDADE E PROGRESSO

Cooperativismo reescreve futuro e gera dignidade no Brasil

Gari Edson Luis da Silva da Cootravipa, Porto Alegre
Edson Luis Legal da Silva, gari da Cootravipa, em Porto Alegre/RS. (Foto: Divulgação)

Anuário 2025 do Sistema OCB revela 26 milhões de cooperados e 578 mil empregos diretos, alcançando 3.500 municípios.

Milhões de brasileiros encontram no cooperativismo um caminho para a dignidade e o desenvolvimento, conforme revelado pelo Anuário do Cooperativismo Brasileiro 2025, publicação oficial do Sistema OCB. O modelo, que desafia a lógica do lucro e empodera comunidades, demonstra sua robustez ao transformar vidas em mais de 3.500 municípios, incluindo regiões remotas e vulneráveis do país, um impacto que ressoa fortemente nesta quarta-feira, 20/05/2026.

Para uma parcela significativa da população, o cooperativismo representa a única estrutura capaz de atender suas necessidades e promover um crescimento sustentável. Diferente de uma empresa convencional, a cooperativa opera sem um "dono", prioriza o benefício mútuo dos seus associados em vez do lucro e existe exclusivamente para servir aos seus próprios cooperados.

Quando um profissional, como um motorista, associa-se a uma cooperativa, ele não busca um empregador. Ele se une a outros para acessar coletivamente clientes, infraestrutura de cobrança e uma representação de mercado que, sozinho, seria inatingível. O mesmo princípio se aplica ao catador de material reciclável que se filia a uma cooperativa: ele obtém acesso vital a equipamentos, logística, poder de negociação com compradores e, crucialmente, muitas vezes à previdência social – direitos que a informalidade raramente oferece.

A Cootravipa, cooperativa gaúcha de limpeza urbana com mais de 40 anos de história, é um exemplo contundente dessa dinâmica. Com mais de 3 mil cooperados, a instituição oferece acolhimento e ressocialização a trabalhadores em situação de vulnerabilidade, assumindo, em diversos casos, um papel que tradicionalmente caberia ao Estado.

Gari Edson Luis da Silva da Cootravipa, Porto Alegre

Na Amazônia, a CoopAgi, cooperativa indígena de Pacaraima, em Roraima, não apenas atua no fornecimento de alimentos para escolas e instituições locais, mas também se integra à Operação Acolhida, do Exército Brasileiro, prestando apoio fundamental a imigrantes e refugiados venezuelanos com alimentos e logística.

Os números do Anuário do Cooperativismo Brasileiro 2025, publicação oficial do Sistema OCB, confirmam a capilaridade e a importância do setor: cooperativas brasileiras estão ativas em mais de 3.500 municípios do país, alcançando cidades pequenas e regiões remotas frequentemente ignoradas pelo mercado tradicional. No setor de saúde, as cooperativas respondem por 33% do mercado de saúde suplementar, viabilizando o atendimento por médicos cooperados em cidades menores, onde a estrutura coletiva é essencial.

As cooperativas de infraestrutura, por sua vez, atendem 806 municípios no interior do país, destacando-se como referência nacional no índice de satisfação do consumidor da Aneel. Já as cooperativas de transporte movimentaram cerca de 450 milhões de toneladas de carga em 2024.

Ao todo, o setor reúne aproximadamente 26 milhões de cooperados, um notável crescimento de 66% desde 2019, e gerou mais de 578 mil empregos diretos no último ano, sendo 52% deles ocupados por mulheres.

No Seridó potiguar, a Comart ilustra a capacidade de uma cooperativa de levar uma tradição local ao reconhecimento global. Fundada por bordadeiras, a cooperativa tornou-se uma referência nacional e internacional no artesanato em bordado. Em 2024, produziu as peças exclusivas que vestiram a delegação brasileira na cerimônia de abertura das Olimpíadas de Paris. Sua Casa das Bordadeiras funciona como centro de qualificação, empregando e capacitando centenas de profissionais, muitas delas mulheres na terceira idade, preservando a cultura e valorizando o trabalho manual.

No Vale do Jequitinhonha, a Dedo de Gente realiza um trabalho similar em uma das regiões mais vulneráveis do país: oferece a jovens a oportunidade de gerar renda por meio da produção artesanal – como esculturas em sucata, bordados, doces e licores – aliada à formação em artes, cinema e tecnologias digitais. Os produtos são comercializados tanto no Brasil quanto no exterior, mostrando como uma cooperativa pode, simultaneamente, preservar a cultura e abrir novos mercados.

Na Amazônia ocidental, a Cooperativa Amazônia Cooperar existe desde 2003 com uma missão singular: manter a floresta em pé enquanto gera renda. Envolvendo 65 comunidades ribeirinhas ao longo do Rio Purus, a cooperativa processa cacau nativo, madeiras tropicais, óleos e manteigas vegetais em sua filial agroindustrial em Boca do Acre. “Levar um pouquinho da floresta viva aos clientes” — essa é a síntese da cooperativa e, também, de um modelo que comprova ser possível crescer sem devastar.

Bordadeira Josefa Ramos, cooperada da Arteza, Paraíba

Em Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, a COAGRO nasceu em 2002 do colapso do setor sucroalcooleiro, que por décadas destruiu empregos e empobreceu a região. Composta por mais de 11 mil associados, 95% deles pequenos produtores de cana, a cooperativa reativou usinas paralisadas, gera em média 3 mil empregos diretos e indiretos por ano e acaba de selar parceria para construir a primeira biorrefinaria de biometano do Norte Fluminense. É um exemplo de cooperativa que transformou uma crise profunda em um projeto de futuro promissor.

A solidez do modelo é atestada por um dado impressionante: enquanto apenas 37% das empresas comuns sobrevivem após cinco anos de operação, existem hoje 2.342 cooperativas brasileiras com mais de 20 anos de atividade, o que corresponde a quase metade do total ativo no país. A cooperativa não depende de um único proprietário para sua continuidade, não está atrelada à lógica do lucro imediato e responde diretamente aos interesses daqueles que a compõem.

Onde há cooperativa, os efeitos se multiplicam: segundo estudo da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), municípios com presença cooperativa apresentam, em média, um PIB per capita R$ 5,1 mil maior, 28,4 empregos a mais por 10 mil habitantes e mais estabelecimentos comerciais ativos do que cidades sem cooperativas.

O cooperativismo não é uma solução nova, mas continua sendo, para milhões de brasileiros, a mais eficaz. Não porque seja perfeito, mas porque se baseia em um princípio que o mercado raramente pratica: o de que quem trabalha junto cresce junto.

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