INCERTEZA GLOBAL
Contradições de trump no irã expõem caos na política externa
De 28 de fevereiro a 4 de abril, discursos variaram sobre vitória, regime e apoio de aliados, minando a confiança.
Desde 28 de fevereiro, as declarações públicas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a guerra no Irã têm pintado um quadro de flagrante contradição, gerando incerteza global. Seus discursos divergiram repetidamente sobre a duração esperada do conflito, os verdadeiros objetivos dos ataques, a extensão dos danos infligidos ao Irã, a relação com os países aliados e os termos para um eventual cessar-fogo. Essa flutuação retórica, emitida por uma das figuras mais poderosas do mundo, não apenas lança dúvidas sobre a estratégia de sua administração, mas também intensifica a imprevisibilidade de um dos maiores impasses geopolíticos da atualidade, afetando a estabilidade regional e global.
Destruição do Irã e fim da guerra: promessas conflitantes
A sequência de declarações otimistas e contraditórias de Trump sobre o fim da guerra no Irã, alternando entre uma vitória já alcançada e a promessa de intensificação de bombardeios, alimentou a confusão internacional. Em 1º de março, um dia após o ataque dos EUA e de Israel que, segundo o comunicado, matou Ali Khamenei, líder supremo do Irã, Trump afirmou que a operação no país do Oriente Médio levaria de quatro a seis semanas. No entanto, em 9 de março, sem dar prazo, disse que a guerra em Teerã acabaria “bem rápido”, mas complementou: “Já vencemos de muitas formas, mas ainda não vencemos o bastante. Seguimos em frente, mais determinados do que nunca a alcançar a vitória definitiva que encerrará esse perigo de longa data de uma vez por todas.”
Em 11 de março, o presidente declarou que “praticamente não sobrou nada para atacar” na nação persa e que a ofensiva acabaria quando ele “quisesse que acabasse”. Sem apresentar um plano, afirmou: “A guerra está indo muito bem. Estamos muito à frente na nossa programação. Provocamos mais danos do que pensávamos ser possível”. No mesmo dia, Trump foi ainda mais longe, afirmando que os EUA já haviam vencido o conflito: “Deixe eu dizer uma coisa: nós vencemos. Nunca queremos dizer que ganhamos antes da hora, mas ganhamos. Na primeira hora, a guerra já tinha acabado.”
Contrariando o discurso de vitória, em 31 de março, Trump disse que os ataques militares poderiam ser encerrados dentro de duas ou três semanas, ao mesmo tempo em que Washington, desmentindo o colapso em Teerã, enviava um porta-aviões e reforçava as tropas na região. Questionado em 1º de abril pela agência de notícias Reuters sobre o término da guerra, Trump respondeu que não poderia dizer exatamente, mas que aconteceria “bem rápido”. Mais tarde, em discurso à nação, declarou que o país persa foi “completamente derrotado” em 32 dias, mas não deu previsão de término e prometeu intensificar os bombardeios nas próximas duas ou três semanas, até que todos os objetivos fossem “totalmente terminados”. A reação veio em 2 de abril, quando o comandante operacional do Exército iraniano, Khatam al-Anbiya, rechaçou as declarações de Trump, alegando que os centros estratégicos de produção de mísseis, drones e sistemas de defesa aérea não teriam sido destruídos.
Objetivos do conflito e sucessão em Teerã: a retórica mutável
A clareza sobre os objetivos de uma guerra é fundamental para a aceitação pública e a legitimidade internacional, mas o presidente Trump apresentou uma narrativa fluida. Em 28 de fevereiro, ele justificou o ataque contra o Irã como uma ação de defesa, visando “defender o povo americano eliminando ameaças do regime iraniano” e bloqueando o desenvolvimento de armas nucleares, repetindo: “eles jamais poderão ter uma arma nuclear.” Nesse mesmo dia, pediu que os iranianos assumissem o controle do governo, afirmando: “Esta será provavelmente a única chance de vocês por gerações.”
Em 9 de março, Trump voltou a justificar a ofensiva como um ato de defesa, alegando que em uma semana “eles iriam nos atacar, com 100% de certeza.” Contudo, em 1º de abril, em pronunciamento nacional, após reafirmar o impedimento nuclear e a defesa dos EUA como razões do conflito, o presidente contradisse sua própria declaração ao dizer que “nunca falamos em mudança de regime”, adicionando que “a mudança de regime ocorreu porque todos os seus líderes originais estão mortos. O novo grupo é menos radical e muito mais razoável.” Essa fala desmentiu um posicionamento anterior de março (sem data específica), quando classificou a escolha de Mojtaba Khamenei como líder supremo de “grande erro” e sinalizou a intenção de indicar uma pessoa para substituí-lo.
Cessar-fogo e negociações: uma via incerta
A busca por uma resolução diplomática, muitas vezes a esperança em cenários de conflito, também foi marcada pela imprevisibilidade de Trump. Em 24 de março, os EUA, por meio do Paquistão, propuseram um plano de 15 pontos para encerrar o conflito, com ameaças de intensificar os ataques caso o Irã não o aceitasse. Karoline Leavitt, secretária de Imprensa da Casa Branca, declarou que, enquanto a diplomacia era explorada, a “Operação Fúria Épica continua inabalável”.
Em 31 de março, Trump afirmou que Teerã não precisava estabelecer um pacto com Washington para o fim da guerra: “Não, eles não precisam fazer um acordo comigo.” No entanto, em 1º de abril, ele alegou que Teerã havia pedido cessar-fogo e que a solicitação só seria considerada quando o Estreito de Hormuz fosse reaberto – uma declaração prontamente desmentida pelo Ministério das Relações Exteriores da República Islâmica. Mais tarde, ao discursar à nação, logo após afirmar que os novos líderes do regime são “muito mais razoáveis” que os anteriores, Trump ameaçou: “Porém, se durante esse período nenhum acordo for feito, temos os olhos em alvos-chave. Se não houver acordo, vamos atacar cada uma das suas usinas de geração de energia com muita força e, provavelmente, simultaneamente.”
Estreito de Hormuz e relação com aliados: o isolamento americano
A coordenação com aliados é um pilar da segurança internacional, mas as declarações de Trump sobre o Estreito de Hormuz e o papel de parceiros ocidentais revelaram uma postura isolacionista. Em 31 de março, apontando para o Reino Unido e a França, Trump afirmou que países que não ajudaram os EUA na guerra contra o Irã deveriam comprar petróleo americano ou “pegar por conta própria” no Estreito de Hormuz, bloqueado desde o início dos ataques. “Vocês vão ter que aprender a lutar por si mesmos. Os EUA não estarão mais lá para ajudar, assim como vocês não estiveram lá por nós. A parte difícil foi feita. Vão buscar o próprio petróleo.”
Em 1º de abril, o presidente americano, no discurso à nação, reiterou as falas do dia anterior e acrescentou: “Os EUA importam quase nenhum petróleo pelo Estreito de Hormuz e não vão importar no futuro. Nunca precisamos. Os países que recebem petróleo pelo Estreito de Hormuz precisam cuidar dessa passagem.” Mais cedo, no entanto, Trump disse estar insatisfeito com a Otan pela falta de apoio no conflito com o Irã e ameaçou deixar a aliança militar. Uma reportagem do jornal inglês Financial Times mostrou que Trump, ao contrário da mensagem de independência que buscou demonstrar, ameaçou interromper o fornecimento de armas à Ucrânia em março para pressionar aliados da Otan a ajudar na reabertura da passagem. Diante da continuação do bloqueio, em 4 de abril, Trump ameaçou o país persa: “Lembre-se de quando eu dei ao Irã dez dias para fazer um acordo ou abrir o Estreito de Hormuz. O tempo está se esgotando — faltam 48 horas antes que todo o inferno se abata sobre eles”, escreveu nas redes sociais.
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