ENCARAMENTO DE PERDAS

Consumidores arcam com R$ 7 bilhões anuais devido a furtos e fraudes de energia

Deputados em audiência na Câmara dos Deputados discutindo perdas de energia.
Dados apresentados na Câmara dos Deputados mostram o alto custo das perdas não técnicas para os consumidores.

Distribuidoras do Amazonas e Rio de Janeiro lideram o ranking de perdas não técnicas. Prejuízos refletem diretamente nas tarifas pagas pela população.

Os consumidores brasileiros desembolsaram mais de R$ 7 bilhões em 2024 e 2025 para cobrir os custos gerados por furtos e fraudes no setor elétrico. Essas perdas não técnicas, que incluem ligações clandestinas e adulteração de medidores, foram apresentadas em dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e de distribuidoras durante uma audiência na Câmara dos Deputados na quarta-feira, 17 de junho de 2026. O impacto financeiro sobre a sociedade é significativo e encarece as tarifas de energia.

A Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee) registrou um prejuízo total de R$ 11,3 bilhões em 2025, sendo que R$ 7,8 bilhões foram repassados aos consumidores. No ano anterior, 2024, as perdas não técnicas atingiram 40 TWh, correspondendo a 6,6% de toda a energia injetada no país. O custo totalizou R$ 10,3 bilhões, dos quais R$ 7,1 bilhões recaíram sobre os ombros dos consumidores, R$ 3,3 bilhões sobre as distribuidoras e R$ 1 bilhão em tributos não recolhidos.

Flávia Pederneiras, gerente de Regulação Econômica da Aneel, detalhou na Comissão Externa da Agenda “Brasil Legal” que o rateio desses prejuízos não é direto. A agência avalia as 51 distribuidoras, ranqueando-as conforme a dificuldade de combate a furtos em suas áreas de atuação. Uma análise comparativa (benchmarking) entre elas determina o montante de perda técnica a ser repassado às tarifas, buscando equilibrar a responsabilidade.

As regiões Norte e Sudeste concentram os maiores índices de perdas, com 19,5% e 6,6% dos casos, respectivamente. A Amazonas Energia e uma concessionária do Rio de Janeiro foram apontadas como as que mais sofrem com perdas não técnicas. Pederneiras exemplificou que a tarifa da Amazonas Energia poderia ser cerca de 13% menor sem os furtos, o que significaria R$ 1 a menos a cada R$ 8 pagos. Na Light, a tarifa residencial poderia ser 9,1% mais barata.

O aumento de furtos de cabos elétricos também agrava o cenário. Em 2025, foram registradas 25.000 ocorrências, gerando R$ 97 milhões em prejuízos, além de acidentes e interrupções. Espera-se que a Lei nº 15.181/2025, que aumentou as penas para esses crimes, contribua para uma redução em 2026.

O Tribunal de Contas da União (TCU) fiscalizou esses custos entre 2023 e 2024. As perdas não técnicas são influenciadas por fatores como complexidade geográfica, expansão desordenada da rede e restrições operacionais em áreas com alta criminalidade e inadimplência, onde o acesso estatal é dificultado.

André Carneiro, chefe da Auditoria Especializada em Energia Elétrica do TCU, descreveu o fenômeno como um “imposto invisível”. Ele explicou que as perdas não técnicas reduzem o faturamento das distribuidoras, diminuindo a base de pagadores para cobrir os custos fixos, o que eleva as tarifas. Esse ciclo contínuo de novos furtos e fuga de consumidores é apelidado de “espiral da morte” pelo setor.

Rosimeire da Costa, presidente do Conselho Nacional de Consumidores de Energia Elétrica (Conacen), alertou que famílias com rendimentos entre 2 a 5 salários mínimos estão sustentando essa cadeia. Ela defendeu a reformulação da metodologia para reduzir o peso financeiro sobre os consumidores.

Entre as soluções propostas, destacam-se a revisão das metas de perdas em áreas com alta restrição operacional e a implementação de “tarifas inteligentes”, com valores diferenciados por localização. Essas medidas buscam mitigar o impacto financeiro sobre a população e reverter o quadro atual.

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