SAÚDE DA MULHER
Consenso internacional renomeia Ovários Policísticos para SOMP
Publicação na The Lancet oficializa termo Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina. Transição será gradual em três anos.
Milhões de mulheres em idade reprodutiva ao redor do mundo terão a sua condição de saúde redefinida a partir de um consenso internacional publicado na revista médica The Lancet, nesta terça-feira, 12 de maio de 2026. A Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP), uma das condições hormonais mais prevalentes, foi renomeada para Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP). A decisão, fruto de um esforço conjunto de 56 organizações científicas, clínicas e de pacientes globais, visa corrigir imprecisões do termo anterior e oferecer uma compreensão mais precisa da complexidade metabólica e endócrina da doença, que vai além dos ovários.
Este marco resultou de um extenso processo que engajou 56 organizações científicas, clínicas e de pacientes globalmente, coletando mais de 14 mil respostas em pesquisas mundiais. A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) representou o Brasil neste esforço, com a participação crucial da endocrinologista Poli Mara Spritzer, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Especialistas explicam que a mudança corrige uma imprecisão fundamental: o termo "cistos" era enganoso. O que se observa, na verdade, são múltiplos folículos ovarianos com crescimento interrompido, e não cistos patológicos. "A denominação antiga era errônea porque focava apenas nos chamados cistos, que na verdade não são cistos, mas folículos com crescimento interrompido", detalha a endocrinologista Poli Mara Spritzer.
Mais que uma questão de nomenclatura, o antigo nome induzia à percepção de que a condição era unicamente ginecológica. Contudo, a Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP) abrange um complexo espectro de alterações hormonais e metabólicas. A resistência à insulina, por exemplo, afeta cerca de 85% das pessoas diagnosticadas, evidenciando a dimensão sistêmica da doença.
A inclusão do termo "poliendócrina" no novo nome é crucial, pois destaca a interconexão de diversos sistemas hormonais na SOMP, incluindo insulina, androgênios, o hormônio luteinizante (LH) e o hormônio antimülleriano (AMH).
Um dado alarmante revelado pelo artigo indica que até 70% das mulheres com a condição permanecem sem diagnóstico, reforçando a urgência por clareza. "Ovários policísticos é um termo enganoso. Ele sugere que a doença seja causada por cistos nos ovários, quando, na verdade, muitas vezes não se trata de cistos patológicos", reitera Alexandre Hohl, diretor do Departamento de Endocrinologia Feminina da SBEM.
A SOMP eleva o risco de condições sérias como obesidade, pré-diabetes, diabetes tipo 2, colesterol elevado, pressão alta e doenças cardiovasculares. Seus sintomas afetam profundamente o bem-estar e a qualidade de vida, manifestando-se em ciclos menstruais irregulares, dificuldades para engravidar, acne, aumento de pelos, queda de cabelo e ganho de peso.
Para além dos impactos físicos, a condição está intrinsecamente ligada a desafios emocionais significativos, como ansiedade, depressão e uma perceptível redução da qualidade de vida, aspectos que a nova denominação busca ajudar a contextualizar melhor.
É fundamental destacar que, embora o nome mude, os critérios diagnósticos e as abordagens de tratamento permanecem inalterados. Para mulheres adultas, o diagnóstico da SOMP continua a se basear na identificação de pelo menos dois dos três seguintes critérios: disfunção ovulatória, hiperandrogenismo e alterações ovarianas detectadas por exames específicos.
O tratamento continua sendo individualizado e adaptado às necessidades de cada paciente. Ele pode envolver anticoncepcionais hormonais, antiandrogênicos, metformina, indutores de ovulação e um acompanhamento metabólico cuidadoso.
A implementação da nova nomenclatura ocorrerá de forma gradual, estendendo-se por um período de três anos. Durante este tempo, haverá uma atualização sistemática em sistemas de saúde, diretrizes clínicas e classificações internacionais, como o CID, garantindo uma transição ordenada e completa.
Especialistas preveem que a adoção da nova denominação não apenas ampliará a compreensão da condição, mas também impulsionará políticas públicas mais eficazes e direcionará novas pesquisas sobre a Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina, abrindo caminhos para um futuro com diagnósticos mais precoces e tratamentos mais assertivos.
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