ÉTICA PROFISSIONAL EM DEBATE

Conselho Federal de Nutrição amplia restrições sobre divulgação de resultados de pacientes nas redes sociais

Nutricionista escrevendo uma prescrição.
Conselho Federal de Nutrição amplia restrições sobre divulgação de resultados.

Novo Código de Ética do Nutricionista restringe publicações de 'antes e depois' e críticas públicas, gerando controvérsia. Profissionais cobram mais escuta do Conselho Federal de Nutrição (CFN).

O Conselho Federal de Nutrição (CFN) definiu um novo Código de Ética e de Conduta para os nutricionistas, impactando diretamente a forma como os profissionais podem divulgar resultados e interagir publicamente. A decisão, que busca estabelecer regras claras para o exercício da profissão, gerou um amplo debate entre os especialistas, com foco principal na ampliação das restrições à divulgação de informações de pacientes nas redes sociais e na manutenção da proibição de críticas públicas a colegas.

Esta nova norma, com previsão de entrada em vigor no fim de julho, estabelece sanções que vão desde advertências e multas até a suspensão ou cassação do registro profissional. Em resposta à intensa repercussão, o CFN suspendeu o lançamento oficial do documento, que estava agendado para o Congresso Brasileiro de Nutrição em maio, e lançou uma nova consulta pública à categoria denominada “Nutricionista, queremos te ouvir”, com prazo até sábado para contribuições.

Conselho federal de nutrição amplia restrições sobre divulgação de resultados

Apesar da mobilização de muitos profissionais, a presidente do CFN, Manuela Dolinsky, sinalizou que a intenção não é revogar a resolução, mas sim avaliá-la com base nas contribuições recebidas. 'Queremos ouvir para agir, mas ainda precisaremos fazer uma avaliação do que for colocado. Vamos manter o código, alterar alguns artigos ou suspendê-lo. Mas essa última opção acredito ser impossível. Foram anos de construção dentro de um longo processo. Não podemos pautar a ação a partir da discussão inflamada da internet', explicou.

A elaboração do código teve início em 2023 e contou com a participação de um grupo de trabalho, análise dos Conselhos Regionais de Nutrição e uma consulta pública prévia que reuniu cerca de 1,5 mil contribuições. Segundo Dolinsky, uma análise preliminar da nova consulta indica que aproximadamente 60% dos participantes apoiam o documento.

Um dos pontos mais polêmicos é a ampliação das regras sobre publicações de 'antes e depois'. Se o código anterior já vetava imagens corporais associadas a resultados nutricionais, a nova redação expande essa proibição para incluir imagens geradas por inteligência artificial, informações sobre composição corporal, gráficos, dados laboratoriais e exames médicos, mesmo com a autorização do paciente. A única exceção são apresentações em contextos técnico-científicos, como congressos e publicações acadêmicas.

O nutricionista Felipe Almeida, com forte presença no Instagram, considera a ampliação das restrições um obstáculo à comunicação profissional e iniciou uma petição online contra as mudanças, que já ultrapassa 23 mil assinaturas. Ele defende que a divulgação de resultados pode ser feita de forma educativa, sem falsas promessas e em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), mediante autorização expressa do paciente.

Por outro lado, a presidente do CFN argumenta que as restrições visam proteger a população de práticas prejudiciais, especialmente no que tange à saúde mental, alertando para o impacto negativo de imagens de 'antes e depois' em crianças, adolescentes e indivíduos com transtornos alimentares.

Desire Coelho, doutora em Ciências e especialista em Transtornos Alimentares, concorda com a preocupação em relação a imagens corporais, mas considera que o texto foi excessivamente restritivo. Ela aponta que a proibição de divulgar exames laboratoriais, que são biomarcadores de saúde, representa uma limitação exagerada, enquanto a vedação a fotos de transformação corporal, ligadas à estética, pode ser compreendida.

A manutenção da proibição de críticas públicas a outros nutricionistas ou entidades da área, já existente no código anterior, também enfrenta resistência, com parte da categoria esperando uma flexibilização para o debate profissional.

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