DIGNIDADE EM FOCO

Congresso Nacional transformou o trabalho doméstico

Trabalhadores Domésticos: a evolução dos direitos e da profissão
Cristiano Ribeiro da Silva, Dinora da Silva Nunes e Tássila Mariele de Souza Castro. Foto: Reprodução/ RBS TV

A PEC de 2013 equiparou a categoria aos demais trabalhadores formais, gerando impactos duradouros na economia e na vida social.

A percepção social sobre o trabalho doméstico transformou-se radicalmente, deixando de ser vista como último recurso profissional para se consolidar como uma carreira valorizada. Essa mudança profunda começou a ser desenhada há mais de uma década, impulsionada por anos de mobilização da categoria por direitos e reconhecimento. Um divisor de águas foi a aprovação da PEC das Domésticas em 2013 pelo Congresso Nacional, que equiparou legalmente esses profissionais aos demais Trabalhadores formais do país. A medida não apenas ampliou garantias fundamentais, mas redefiniu as relações de trabalho no setor, elevando a dignidade e abrindo novas oportunidades para milhares de pessoas que, antes, enfrentavam invisibilidade e preconceito.

Nesta sexta-feira, 01 de maio de 2026, enquanto a sociedade reflete sobre avanços sociais e econômicos, a trajetória de profissionais como Dinora da Silva Nunes personifica essa luta histórica. Aos 74 anos, Dinora acumula mais de 40 anos como empregada doméstica, com mais de três décadas dedicadas à mesma residência. Em sua época inicial, as garantias eram praticamente inexistentes e o preconceito era uma triste realidade, inclusive com diferenças salariais entre Trabalhadoras negras e brancas, refletindo uma dura discriminação.

“Quando eu comecei, não existia lei. Só depois da Constituinte que a gente teve o direito, a carteira assinada, a jornada de trabalho, tudo só começou através da nossa organização da categoria”, relata Dinora, cuja experiência impulsionou a se tornar uma das fundadoras da Associação das Trabalhadoras Domésticas de Canoas. Mesmo aposentada, ela continua ativa na defesa da categoria, enfatizando a importância crucial da formalização.

“A nossa caminhada foi difícil. Agora, com o surgimento dos MEI, já fica melhor para se organizar”, comenta, apontando para as novas ferramentas que facilitam a formalização e a autonomia.

Um perfil cada vez mais comum no setor é o de quem escolhe o serviço doméstico por vocação ou como uma virada de carreira. Cristiano Ribeiro da Silva é um exemplo notável. Ex-chefe de açougue por 25 anos, ele enxergou na faxina profissional uma promissora oportunidade. Hoje, Cristiano e sua esposa trabalham em dupla, atendendo, em média, duas casas por dia em turnos de quatro horas, e celebram uma renda superior à que tinham no antigo emprego, sem planos de retornar ao regime tradicional da CLT. Ambos são MEI e contam com uma lista de espera de clientes, prova da demanda e valorização dos serviços.

Lençóis impecavelmente arrumados, ambientes perfumados e uma atenção minuciosa aos detalhes são marcas do serviço, que vai muito além da simples limpeza, explica Cristiano. “Sabe quando chega e parece estar em um hotel de luxo? A gente quer deixar essa experiência para os nossos clientes”, descreve ele, destacando o cuidado e a qualidade oferecidos.

Tássila Mariele de Souza Castro, diarista profissional e mãe de dois filhos, investiu em um curso profissionalizante, o que transformou completamente sua visão sobre a atividade. “Trabalhar com faxina não é só ir no cliente e fazer uma limpeza. É entregar confiança, questão de saúde também para os nossos clientes”, comenta Tássila, ressaltando a responsabilidade inerente ao seu trabalho.

Ela iniciou jovem, aprendendo com a mãe, e decidiu dedicar-se à profissão após enfrentar dificuldades pessoais, incluindo a enchente que atingiu sua casa. Tássila reforça com convicção que sua escolha não foi por falta de opção. “Remunera bem”, afirma, com clientes fixos e eventuais, adaptando-se à rotina de cada residência e atuando em dupla em serviços mais demandantes.

Para quem vive e dignifica a profissão, a mensagem é uníssona e clara: respeito. “Através da necessidade, brigamos por direito, por jornada de trabalho, por toda essa transformação que hoje aconteceu”, resume Dinora, encapsulando a luta e as conquistas da categoria.

Ao rememorar os tempos de preconceito, Dinora relata que a discriminação era parte integrante do cotidiano quando começou. A desigualdade, segundo ela, manifestava-se na remuneração e no tratamento dentro das casas, uma situação amplamente vivida por muitas colegas e que marcou a trajetória das Trabalhadoras Domésticas por incontáveis décadas.

“Havia até uma diferença de salário para funcionária negra da funcionária branca. Era uma discriminação, a patroa tratava melhor a branca do que a negra”, conclui Dinora, cujas palavras ressaltam a profunda transformação social e de direitos alcançada.

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