CONFLITO GLOBAL
Conflito no Irã redesenha cenário para o agronegócio brasileiro
Custos logísticos sobem 43% e café perde 14% das exportações, enquanto algodão registra alta de 55% em abril.
O conflito no Irã reconfigura drasticamente as exportações do agronegócio brasileiro, impondo um cenário complexo de desafios e oportunidades para produtores e consumidores. As tensões no Oriente Médio, que se intensificaram desde o começo da guerra, impactam diretamente rotas e custos, com reflexos notáveis observados em abril, segundo análise divulgada nesta terça-feira, 12 de maio de 2026. A instabilidade geopolítica, que levou ao fechamento de vias cruciais como o Estreito de Ormuz, eleva fretes e exige novos seguros, afetando a rentabilidade do setor e podendo chegar à mesa do consumidor.
Um dos setores mais atingidos é o do café. As exportações para o Oriente Médio registraram uma queda de 14% desde o início da guerra. O bloqueio do Estreito de Ormuz força os exportadores a buscar alternativas logísticas, tornando as rotas mais longas e, consequentemente, mais dispendiosas. Luiz Saldanha, produtor rural, detalha os efeitos: “Você tem problemas de algumas rotas para chegar em alguns países, principalmente na Arábia Saudita, nos próprios Emirados Árabes. Então, a Turquia está recebendo mais café por esses desvios, assim como a Bélgica. A cotação de frete este ano, comparado ao mesmo período do ano passado, está cerca de 43% mais alta. Isso ocorre tanto pela questão do combustível mais caro quanto pela necessidade de seguro de guerra para algumas rotas”.
Contudo, para outros setores, as rotas alternativas abriram novas portas. O algodão brasileiro, por exemplo, encontrou mercados inéditos. A escalada no preço do petróleo encareceu o poliéster, uma fibra sintética amplamente utilizada pela indústria têxtil, o que conferiu maior competitividade ao algodão. Em abril, as vendas do produto dispararam 55%. Davi Weiss, presidente da Associação Nacional dos Exportadores de Algodão, comenta a mudança: “Até então, a gente não conseguia ser competitivo em preço. Mas, a gente vem chegando, porque no momento atual a relação de preços entre o algodão e o poliéster está em um dos menores patamares. A gente tem essa oportunidade de exportar mais do nosso algodão”.
Embora o Brasil seja um gigante exportador de uma vasta gama de produtos, e alguns setores se beneficiem, economistas são unânimes: a paz é sempre o melhor cenário para os negócios. André Diz, economista do Ibmec, ressalta que “É um contexto de perda para a economia como um todo. É mais incerteza, piora nos fluxos de comércio e, dada a relevância do agronegócio brasileiro, o melhor cenário é um cenário de calmaria e previsibilidade para os fluxos de comércio e para as negociações internacionais”. Não há um lado positivo em conflitos armados, pois a explosão de preços e a instabilidade não compensam o produtor a longo prazo.
Os custos dessa instabilidade, aliás, não se restringem aos exportadores. O consumidor brasileiro também pode sentir o impacto. “Problemas logísticos podem, primeiro, atrasar com que essa safra se mova do Brasil para os outros mercados e isso sim impacta globalmente o preço do café”, explica Luiz Saldanha, alertando para a potencial elevação de preços no mercado interno.
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