FORÇA E CARDIO
Combinar treino de força e cardio não atrapalha ganho de músculo, aponta estudo da USP
Pesquisa com jovens sedentários, publicada no Journal of Applied Physiology, indica que a combinação de modalidades não prejudica a hipertrofia, embora possa impactar o ganho de força máxima.
Um estudo inovador conduzido na Universidade de São Paulo (USP) desmistificou a crença de que a combinação de exercícios de força e aeróbicos (cardio) prejudica o ganho de massa muscular. A pesquisa, divulgada no Journal of Applied Physiology, acompanhou 19 jovens sedentários por 16 semanas e concluiu que a hipertrofia muscular é equivalente em quem pratica ambas as modalidades ou apenas musculação isoladamente. Contudo, os resultados, que vieram à tona nesta sábado, 23/05/2026, apontaram uma redução no ganho de força entre os participantes que realizaram treinos combinados. Carlos Ugrinowitsch, professor da Escola de Educação Física e Esporte da USP e coautor do estudo, explicou que a percepção inicial de prejuízo à formação muscular pode ter surgido dessa diferença no ganho de força. "Existia a ideia de que combinar musculação com exercícios aeróbicos poderia comprometer o ganho de massa muscular, pois o esforço provocado pelo cárdio interferiria na síntese proteica relacionada à hipertrofia. Mas não é isso que acontece. O estudo mostrou que o aumento muscular foi equivalente nos dois grupos de participantes", afirmou Ugrinowitsch. Anteriormente, o meio científico especulava que o treino aeróbico poderia competir com a musculação por estimular a biogênese mitocondrial, processo que demandaria recursos de síntese proteica essenciais para o crescimento muscular. Esse chamado "efeito de interferência" sugeria que o metabolismo aeróbico teria prioridade por sua relevância para a geração de energia e sobrevivência. "E por que fomos investigar o treino concorrente? Porque a combinação de treino aeróbico e treino de força é a base para uma boa saúde", ressaltou Ugrinowitsch. O treinamento aeróbico, crucial para a saúde cardiovascular, eleva a frequência cardíaca e a oxigenação sanguínea, auxiliando na queima de calorias e no fortalecimento do coração. A metodologia envolveu a divisão dos 19 voluntários em dois grupos. Um realizou apenas treinos de musculação duas vezes semanais (leg press e extensão de pernas, com duas a três séries de 12 repetições) durante quatro meses. O outro grupo seguiu o mesmo protocolo de musculação, mas acrescentou quatro treinos de HIIT (High-Intensity Interval Training) por semana, compostos por sequências rápidas de exercícios intensos intercaladas com breves períodos de descanso, focando em tiros de corrida. As análises moleculares, incluindo biópsias musculares e acompanhamento da síntese proteica, não revelaram diferenças significativas na hipertrofia entre os grupos. A diferença observada no ganho de força, segundo Ugrinowitsch, não estaria ligada à síntese proteica, mas a um fenômeno neuromuscular. "Existem dois fatores associados para a produção de força: o ganho de músculo e a ativação cerebral. É como se o treino aeróbico criasse uma fadiga na comunicação entre o cérebro e o músculo. Na hora do esforço máximo, o sistema nervoso não consegue recrutar as fibras com a mesma capacidade", explicou. Este texto foi publicado originalmente pela Agência Fapesp, em 20 de maio de 2026.
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