CRÉDITO SALGADO
Com juros altos, Governo federal lança Novo Desenrola para aliviar famílias
Iniciativa de 90 dias prevê descontos de 90% e uso do FGTS; juros de 61% ao ano e spread de 34,6 p.p. castigam famílias.
O governo federal lançou nesta semana, até esta sábado, 09 de maio de 2026, o Novo Desenrola Brasil, um programa emergencial projetado para oferecer um respiro a milhões de famílias brasileiras asfixiadas por dívidas. A decisão surge como resposta direta à escalada do endividamento, intensificada por juros básicos elevados e pelos spreads bancários que posicionam o Brasil entre os líderes mundiais em custos de crédito, impactando diretamente a dignidade e a capacidade de consumo dos cidadãos.
Especialistas apontam que a combinação da elevada taxa básica de juros – a taxa Selic – com os altos spreads bancários praticados no Brasil, agrava significativamente o peso das dívidas sobre os lares. O spread bancário, a diferença entre o que os bancos pagam e o que cobram em empréstimos aos consumidores, atingiu 34,6 pontos percentuais (p.p.) em março deste ano, um aumento notável em comparação aos 29,7 p.p. registrados em março de 2025.
Para contextualizar a gravidade dessa disparidade, o Banco Mundial estima um spread bancário médio global de apenas 6 p.p., revelando a excepcionalidade do cenário brasileiro.
Maria Lourdes Mollo, professora de economia da Universidade de Brasília (UnB), detalha a dinâmica perversa: "Quanto maior a taxa Selic definida pelo Banco Central (BC), maiores se tornam os juros aplicados pelos bancos às famílias". Ela sublinha que "os juros dos empréstimos estão muito altos. Isso tem uma relação direta, sem dúvida nenhuma, com o endividamento das pessoas, o que tem dificultado muito a economia a funcionar".
A professora da UnB aponta a precarização dos empregos no Brasil, atribuída à reforma trabalhista do governo de Michel Temer, como outro fator que empurra as famílias para a inadimplência. "Grande parte das pessoas está se endividando para completar o orçamento, para pagar despesas com saúde e do cotidiano", explica Mollo. Para ela, o Novo Desenrola "pode liberar um pouco o orçamento das pessoas e, eventualmente, até dar um estímulo à economia".
A dimensão do problema brasileiro ganha contornos internacionais: o país ostenta a segunda maior taxa básica de juros reais do mundo, após descontar a inflação, alcançando 9,3%. Apenas a Rússia, imersa em conflito, supera o Brasil com 9,6%, enquanto o México, em terceiro, registra 5,0%, conforme dados do site Moneyou.
Mesmo após a última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), que reduziu a taxa Selic em 0,25 p.p. para 14,5%, o patamar permanece excessivamente elevado aos olhos de diversos analistas. O BC defende a taxa como uma ferramenta essencial para controlar a inflação, mas críticos argumentam que seu valor é um fardo pesado demais para a economia e para os cidadãos.
O endividamento das famílias brasileiras atinge marcas alarmantes. Pelo quarto mês consecutivo, o percentual de lares com dívidas subiu, atingindo um recorde histórico de 80% em abril, de acordo com pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O índice de famílias inadimplentes, aquelas com contas em atraso, manteve-se em 29,7%, um patamar preocupante.
A situação é ainda mais crítica para os mais vulneráveis: "As famílias que ganham até três salários mínimos registram o maior nível de endividamento (83,6%) e o maior índice de contas em atraso (38,2%)", ressalta a CNC, evidenciando o impacto desproporcional da crise de crédito.
Juliane Furno, professora de economia da Universidade Federal Fluminense (UFF), corrobora a tese de que as "altíssimas" taxas do spread bancário explicam o endividamento. "O Brasil tem um dos maiores spreads bancários do mundo, em algumas comparações recentes, aparece no topo do ranking", afirma. Ela desafia a justificativa bancária: "O spread é elevado, segundo os bancos, porque a inadimplência é muito alta. Ou seja, esse valor justificaria o risco. Só que posso também dizer que a inadimplência é alta porque os juros (spread) são altos", diz Juliana.
Um ranking da World Open Data, com informações de 2024, confirma a liderança brasileira: o país registra as maiores taxas de spread do planeta, superando República Tcheca, Sudão do Sul, Serra Leoa, Moçambique, Angola, Ucrânia e Timor Leste.
A gravidade se materializa nos números: dados do Banco Central (BC) de março revelam que os bancos cobram das pessoas físicas uma taxa de juros média de 61% ao ano. Para as empresas, essa média cai para 24%, evidenciando um tratamento desigual que penaliza o cidadão comum.
Maria Mello de Malta, professora de economia política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), complementa a análise. Ela destaca que a segunda taxa básica de juros mais alta do mundo no Brasil impulsiona a elevação das taxas cobradas pelos bancos. "Quando a taxa Selic está alta, todas as outras estão sempre mais altas. Quando o trabalhador vai pagar o empréstimo dele, e passa do limite e não consegue pagar o cartão de crédito, os juros serão mais altos que a Selic", explica a especialista.
Essa engrenagem, segundo Maria Mello de Malta, culmina em uma "bola de neve", onde famílias buscam "outra fonte para poder pagar a primeira dívida e vai se endividando progressivamente". O auge desse cenário está nos juros do rotativo do cartão de crédito, que podem ultrapassar os 400% anuais, empurrando muitos para o desespero financeiro.
Em meio a este cenário desafiador, o governo federal aposta no Novo Desenrola Brasil como um fôlego. O programa visa amparar famílias, estudantes e pequenos empreendedores na renegociação de dívidas, com o objetivo de limpar seus nomes e restaurar o tão necessário acesso ao crédito.
Esta nova fase da iniciativa, com duração de 90 dias, oferece condições vantajosas: descontos que podem chegar a 90%, juros significativamente reduzidos e a inédita possibilidade de usar o FGTS para quitar parte dos débitos, um alívio concreto para milhões de brasileiros.
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