SAÚDE EM RISCO
CNEN aumenta em 24% o preço de insumos essenciais para tratamento de câncer
Reajuste linear de 24% em radioisótopos e radiofármacos impacta clínicas e hospitais que atendem mais de 2 milhões de procedimentos anuais no Brasil. Críticos alertam para o desequilíbrio com a tabela SUS congelada.
A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) definiu um aumento médio linear de 24% sobre os preços de radioisótopos e radiofármacos produzidos por suas unidades técnico-científicas. A decisão, publicada em resolução, entra em vigor a partir de 1º de agosto de 2026 e afeta todo o portfólio comercializado pelo Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), pelo Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN) e pelo Centro Regional de Ciências Nucleares do Nordeste (CRCN-NE).
A justificativa apresentada pela CNEN aponta a necessidade de recompor o equilíbrio econômico-financeiro da produção, citando o aumento dos custos de insumos importados, a variação cambial, a inflação e os reajustes em contratos e de pessoal como fatores determinantes.
Radioisótopos são elementos radioativos que funcionam como matéria-prima essencial para a fabricação de radiofármacos. Estes medicamentos são cruciais em exames de diagnóstico por imagem e em terapias contra diversos tipos de câncer, além de outras patologias.
Atualmente, cerca de 430 clínicas e hospitais em todo o Brasil dependem dos insumos fornecidos pela CNEN. Esses materiais viabilizam mais de dois milhões de procedimentos médicos anualmente, abrangendo diagnósticos e terapias em áreas como cardiologia, oncologia e neurologia.
A medida gerou forte repercussão no setor. Embora haja reconhecimento sobre a necessidade de cobrir os custos de produção, a preocupação central reside no impacto financeiro em um segmento cuja remuneração tem permanecido praticamente estagnada. O argumento principal é que o governo, ao reconhecer a importância estratégica desses insumos para o sistema de saúde brasileiro na própria resolução, falha em refletir esse reconhecimento na remuneração dos serviços de medicina nuclear. Valores da tabela SUS, defasados historicamente, continuam a base para esses atendimentos, intensificando o desequilíbrio econômico para as clínicas que atendem pacientes do sistema público.
Celso Cunha, presidente da Associação Brasileira para o Desenvolvimento das Atividades Nucleares (Abdan), entidade que representa empresas do setor nuclear, expressou apreensão. Ele destacou que o problema transcende a questão médica, afetando a infraestrutura nacional e, consequentemente, a população. "O Brasil possui mais de 440 serviços de medicina nuclear em funcionamento e uma rede de profissionais altamente qualificados. Ainda assim, a capacidade de expansão do setor enfrenta limitações importantes relacionadas à produção de insumos estratégicos e ao fortalecimento da cadeia produtiva nacional", declarou.
A dependência brasileira em relação à produção nacional de radioisótopos e à importação de insumos é um ponto crítico. O projeto do Reator Multipropósito Brasileiro (RMB), anunciado há quase duas décadas como estratégico para ampliar a produção nacional, reduzir a dependência externa e garantir a segurança no abastecimento, nunca saiu do papel, apesar de sucessivos anúncios.
A reportagem questionou a CNEN sobre os impactos do reajuste na Medicina Nuclear e as razões para o aumento, considerando a defasagem da tabela SUS. Até o momento da publicação desta notícia, não houve resposta.
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