MERCADO AGITADO
Cepea, da Esalq, revela queda acentuada do etanol no Centro-Sul
Preços recuam até 15% em quatro semanas; impacto direto na escolha do consumidor. Safra 2026/27 inicia com projeções de aumento da oferta.
Os consumidores e o setor sucroenergético do Centro-Sul do Brasil sentem o impacto da queda acentuada nos preços do etanol, conforme revelado pelo levantamento do Cepea, da Esalq, nesta quinta-feira, 30/04/2026. Em um movimento que redefine a competitividade do biocombustível frente à gasolina, os valores do etanol hidratado e anidro recuaram até 15% nas últimas semanas, pressionando as estratégias das usinas e influenciando diretamente a escolha nas bombas.
O etanol hidratado registrou um declínio de cerca de 15% em apenas quatro semanas, enquanto o anidro acompanhou a tendência, recuando aproximadamente 14%. Este cenário é um reflexo direto do aumento na moagem de cana, que elevou a disponibilidade do produto nas usinas, somado a uma demanda contida, com compradores em compasso de espera por novas desvalorizações. A pressão sazonal, característica do início da safra, também contribui para este panorama.
Em março de 2026, que marcou o último mês da entressafra no Centro-Sul, o etanol hidratado foi negociado, em média, a R$ 2,9288 por litro, representando uma queda de 1,49% em comparação com fevereiro do mesmo ano. O anidro, por sua vez, encerrou o período a R$ 3,2834 por litro, com um recuo de 3,66%. Essa desvalorização já se manifestava, impulsionada pela menor procura do consumidor pelo biocombustível e pela desaceleração industrial em algumas unidades produtoras.
Apesar dessa recente retração, o balanço geral da safra 2025/26 ainda mostra um cenário positivo a longo prazo. O preço médio do etanol hidratado acumulou R$ 2,7805 por litro entre abril de 2025 e março de 2026, com um aumento real de 6,52% em relação ao ciclo anterior. O anidro seguiu um caminho similar, valorizando 6,21% e atingindo a média de R$ 3,1291 por litro no mesmo período.
Contudo, o desempenho positivo nos preços não se traduziu em volume de vendas. As usinas paulistas registraram uma retração de 28% nas vendas de etanol hidratado durante o período, um sinal claro de que os valores mais elevados não foram capazes de estimular o consumo.
No dinâmico mercado de combustíveis, a gasolina conquistou terreno. Dados da ANP revelam que as vendas de gasolina C aumentaram 5,64% no ciclo, totalizando expressivos 43,38 bilhões de litros. Em contrapartida, o consumo de etanol hidratado sofreu uma queda de 4,24%, somando 19,04 bilhões de litros. Mesmo com a vantagem de preços do etanol em São Paulo, a escolha do consumidor nas bombas continua sendo moldada por fatores como poder aquisitivo, complexidade logística e preferências pessoais.
A safra 2026/27, que teve início em abril de 2026, descortina um cenário de cautela para os produtores. A previsão de uma oferta ampliada — impulsionada também pelo crescente avanço do etanol de milho — e a inerente volatilidade do petróleo são elementos-chave que moldarão as estratégias das usinas. As projeções apontam para uma moagem de cana entre 625 milhões e 630 milhões de toneladas no Centro-Sul, um crescimento potencial de até 4%.
Caso o petróleo mantenha sua valorização, o etanol poderá reconquistar sua competitividade em relação à gasolina, aliviando a pressão sobre os produtores e oferecendo uma alternativa mais acessível aos motoristas. Por outro lado, uma destinação maior da cana para a produção de biocombustível pode, paradoxalmente, diminuir a oferta de açúcar e, assim, sustentar os preços no mercado internacional.
Em contraste, o Norte e Nordeste apresentam um panorama distinto. Com o ciclo de safra chegando ao fim, as usinas da região concentraram esforços na produção de etanol, buscando fortalecer seus caixas. Dados do Ministério da Agricultura revelam que a produção regional atingiu 2,79 bilhões de litros até fevereiro de 2026, superando o desempenho do ciclo anterior. A oferta local mais restrita impulsionou os preços do etanol hidratado em estados como Pernambuco, Paraíba e Alagoas, embora o anidro tenha experimentado um recuo com a chegada de produto proveniente de outras regiões do país.
Diante desse complexo cenário, o setor sucroenergético brasileiro inicia a nova temporada em uma encruzilhada estratégica. De um lado, vislumbra a possível recuperação do etanol, atrelada à evolução do cenário energético global; do outro, aposta na sustentação dos preços do açúcar, impulsionada por restrições de oferta no mercado internacional. É um período de decisões cruciais para a cadeia produtiva, com impactos que se estenderão da lavoura ao tanque de combustível e à mesa do consumidor.
Gostou desta notícia?
Entre no nosso grupo do WhatsApp!
Receba as principais notícias em primeira mão, direto no seu celular. É grátis!
📲 Quero entrar no grupo
Comentários (0)
Deixe seu comentário