EDUCAÇÃO: O FUTURO EM PAUTA
CEO da Fundação Lemann alerta para 'super lobby' do ensino superior e ausência de voz para crianças na educação básica
Denis Mizne, CEO da Fundação Lemann, defende prioridade total para o ensino básico e critica a falta de representatividade para as crianças diante de interesses estabelecidos.
O CEO da Fundação Lemann, Denis Mizne, lançou um alerta contundente na última entrevista ao Estadão, parte da série de eventos “Brasil Adiante”. Em 14 de junho de 2026, ele defendeu a urgência de priorizar o ensino básico, denunciando um "super lobby do ensino superior" que captura recursos essenciais. Mizne ressaltou que, enquanto o ensino superior possui forte representação, o ensino básico público, onde estudam 85% das crianças brasileiras, carece de uma voz ativa para defender seus interesses.
A série de debates busca consolidar propostas concretas para o próximo presidente do País, com um documento a ser entregue em novembro. Mizne detalhou as três medidas prioritárias que o MEC (Ministério da Educação) deveria implementar nos primeiros 24 meses de um novo governo para transformar a educação nacional.
Acelerar o Compromisso Nacional Criança Alfabetizada (CNCA) encabeça a lista. Embora o Brasil tenha avançado significativamente, saltando de 30% para 66% de crianças alfabetizadas, o objetivo de 100% até o final da próxima gestão presidencial exige um plano de ação robusto. O CNCA já apoia Estados e municípios na erradicação do analfabetismo escolar, um esforço que precisa de metas mais ambiciosas e consolidação.
Em seguida, Mizne propôs um programa similar para a matemática, replicando o modelo de sucesso da alfabetização. A ideia é aproveitar o avanço conquistado e acelerar o ensino de matemática com apoio à formação de professores, mensuração de resultados e incentivos, utilizando a mesma estrutura colaborativa.
A terceira prioridade é aprimorar o Ensino Fundamental 2, com ênfase no tempo integral. Atingir pelo menos sete horas de aula diárias para todos os alunos é crucial. Embora o currículo atual seja considerado bem desenhado e engajador, sua implementação demanda articulação política e investimento governamental significativo. A transição demográfica do Brasil, com menos crianças, oferece uma janela de oportunidade para destinar mais atenção a cada estudante e otimizar a rede escolar.
Mizne explicou que não se trata de criar novas leis, mas de fortalecer o arcabouço legal existente, como o decreto do CNCA, e expandi-lo para a matemática. A transformação de compromissos em lei, como ocorreu com a alfabetização, confere maior segurança e caráter de projeto de Estado, dissociando-o de governos específicos. A experiência com o Compromisso Nacional Toda Matemática, lançado recentemente, precisa ser concretizada.
A expansão do ensino em tempo integral, que já consta no Plano Nacional de Educação, requer mudanças estruturais, especialmente em nível estadual e municipal, onde os professores estão lotados. A garantia de que os professores dediquem 40 horas à mesma escola, tornando-se mentores para os adolescentes, é um componente essencial de uma escola integral de qualidade. Isso envolve mapeamento de vagas, reformas de infraestrutura e, principalmente, colaboração entre MEC, Estados e municípios para assegurar o bom funcionamento do sistema.
O CEO enfatizou que a educação básica sofre com a disputa de prioridades e a captura de recursos por interesses adultos, em detrimento do desenvolvimento infantil. A falta de uma liderança política "fanática" por educação no Brasil é um obstáculo. Ele compara a situação com casos de sucesso como Singapura e Coreia do Sul, onde o compromisso governamental foi fundamental. A prioridade deve ser clara: focar na aprendizagem infantil e não apenas em infraestrutura ou salários.
Mizne alertou para os desafios em áreas de periferia de grandes cidades, que enfrentam problemas como violência e dificuldade em reter bons professores. A inclusão de crianças com deficiência também demanda atenção e recursos adicionais. No entanto, ele reitera que a questão é primariamente política: sustentar a pauta da alfabetização e da educação básica, engajando governadores e garantindo o compromisso do próximo presidente.
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