PREÇO EM ALTA
Canetas emagrecedoras impulsionam alta de 105% no preço do whey protein globalmente
Medicamentos para perda de peso aumentam demanda por proteína, elevando custos de matéria-prima em até 105% e pressionando o mercado de suplementos.
A expansão global no uso de medicamentos emagrecedores injetáveis, como Ozempic e Wegovy, da classe dos agonistas de GLP-1, gerou um efeito inesperado no setor de suplementos alimentares: um aumento expressivo no preço do whey protein. Impulsionada pela busca por maior ingestão de proteína durante processos de emagrecimento, a demanda pelo produto cresceu rapidamente, pressionando os custos da matéria-prima em diversos mercados. O whey protein, essencial para preservar a massa muscular durante a perda de peso, viu seu preço internacional do concentrado com 80% de teor proteico (WPC 80) subir até 105% nos últimos 12 meses. Em maio de 2026, a tonelada do produto atingiu € 22 mil (cerca de R$ 128 mil) na União Europeia, conforme dados da StoneX.
Esse cenário reflete uma mudança significativa no perfil de consumo. O whey, antes majoritariamente associado à musculação e nutrição esportiva, agora integra a dieta de indivíduos que utilizam medicamentos para emagrecer e necessitam de aporte proteico para evitar a perda de massa magra. A ação desses medicamentos, que reduzem o apetite e retardam a digestão, levou profissionais de saúde a recomendarem o consumo reforçado de proteínas.

Tiago Chimelli, CEO da Proteas, distribuidora de ingredientes proteicos, observa que o whey deixou de ser um nicho restrito ao fisiculturismo para se tornar "mainstream". "As marcas passaram a usar o insumo como fortificante proteico em alimentos em geral", explica. O whey protein, obtido a partir do soro do leite — resíduo da fabricação de queijo —, agora é incorporado em chocolates, pães e outros alimentos industrializados, além dos suplementos tradicionais.
A produção mundial enfrenta o desafio de acompanhar o ritmo acelerado da demanda, e não há expectativa de recuo nos preços no curto prazo. Novas unidades industriais com capacidade ampliada só devem entrar em operação entre o segundo e o terceiro trimestre de 2027. A indústria brasileira, dependente de importações, acompanha a situação com atenção. A Sooro Renner, fabricante de concentrado de proteína do soro do leite, anunciou um investimento de R$ 800 milhões em uma nova fábrica em Francisco Beltrão, no Paraná, para aumentar sua capacidade produtiva.
Para Juliana Torres, analista da StoneX, uma possível acomodação nos preços pode ocorrer se o consumo desacelerar ou o mercado se ajustar. Contudo, ela avalia que os valores dificilmente retornarão aos patamares anteriores à explosão da demanda. Os Estados Unidos, um dos principais produtores globais, mantêm alto consumo interno, pressionando os estoques mundiais. Essa dependência externa e o alto consumo internacional mantêm os preços elevados.
Diante deste cenário, reajustes se tornaram necessários. Tiago Chimelli relatou repassar aumentos de cerca de 70% a seus clientes. Fabricantes de suplementos brasileiros também sentiram a pressão. Diego de Freitas Rodrigues, CEO da Growth Supplements, informou que a empresa realizou dois reajustes desde o ano passado, ambos em torno de 15%. A estratégia da Growth para mitigar o impacto ao consumidor final incluiu a ampliação da oferta de produtos com menor concentração proteica. "Grande parte do público, como o usuário de canetas emagrecedoras, não precisa de uma dose tão alta de proteína, como se fosse um atleta de fisiculturismo. Para esse consumidor, lançamos o whey com concentração de 60%", explica Rodrigues. Essa nova opção é cerca de 40% mais barata e, segundo a empresa, melhora o sabor. A redução do tamanho das embalagens é outra medida adotada para oferecer produtos mais acessíveis.
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