SAÚDE E SEGURANÇA
Os riscos ocultos do uso de Zolpidem no Brasil
Após disparada no consumo, Anvisa endurece regras de venda para conter casos graves de dependência e sonambulismo associados ao medicamento.
O uso indiscriminado de medicamentos para dormir tem gerado consequências trágicas no Brasil, culminando em uma atuação mais rígida dos órgãos reguladores. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) decidiu, em agosto de 2024, reclassificar o Zolpidem para a lista de substâncias de controle especial, exigindo agora a receita azul — documento restrito a fármacos com potencial de dependência — e a prescrição exclusivamente presencial. A medida foi tomada para frear uma epidemia de uso inadvertido que vinha transformando o indutor de sono, popular desde 2007, em um problema de saúde pública.
O impacto dessas decisões transcende as estatísticas, afetando diretamente a integridade física de pacientes. Na manhã de 29 de junho de 2022, o médico Vitor Piva, de 34 anos, vivenciou um drama extremo após recorrer ao medicamento. Na tentativa de combater a insônia persistente, ele ingeriu doses sucessivas do remédio, resultando em um episódio de parassonia — comportamento complexo durante o sono — que o levou a cair do sétimo andar de seu apartamento em São Paulo.
Embora tenha sobrevivido após meses de internação na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital das Clínicas, Piva sofreu sequelas irreversíveis, incluindo a amputação da perna direita. A Polícia Civil de São Paulo, após investigar o caso, descartou tentativa de suicídio ou crime, atribuindo a queda aos efeitos adversos do Zolpidem, como as alucinações e o sonambulismo, citados em relatório oficial.
O cenário é agravado pela banalização da droga. Um estudo do Instituto de Psiquiatria (IPq) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), publicado na revista Sleep Science, aponta que a insônia afeta um em cada três brasileiros, com 60% recorrendo a remédios. Alexandre Pinto de Azevedo, do Programa de Transtornos do Sono do IPq-FMUSP, alerta que o Zolpidem é eficaz sob indicação correta, mas a negligência na prescrição e o uso além das quatro semanas recomendadas transformaram o medicamento em um risco constante.
Especialistas da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) reforçam que o consumo em doses elevadas leva à chamada amnésia lacunar, onde o paciente perde a consciência sobre suas próprias ações. Apesar da queda nas vendas após as restrições da Anvisa, o mercado paralelo de receitas falsificadas e farmácias irregulares continua sendo um obstáculo, segundo a médica Sandra Doria Xavier, do Instituto do Sono de São Paulo.
Atualmente, novas diretrizes da Academia Brasileira de Neurologia (ABN) recomendam a terapia cognitivo-comportamental como tratamento prioritário para insônia, reservando o Zolpidem apenas como recurso temporário. O controle da dependência exige acompanhamento rigoroso, já que a suspensão abrupta do fármaco pode desencadear crises graves, evidenciando a necessidade urgente de cautela médica e conscientização social.
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