ROTA ESTRATÉGICA

Canal do Panamá lucra com crise em Ormuz

Vista aérea do Canal do Panamá com navios em trânsito, simbolizando rota alternativa em meio à crise
O canal do Panamá se transformou em uma rota marítima alternativa ao longo do estreito de Ormuz — Foto: Getty Images via BBC

O tráfego na via marítima aumenta em até 20% e a receita pode crescer 15% após desvio de rotas pela instabilidade no Irã, gerando bilhões de dólares em injeção de recursos para o país.

Desde o início do conflito no Irã, em 28 de fevereiro, companhias de navegação globais redirecionaram suas rotas para garantir a segurança de cargas vitais. Essa mudança estratégica, impulsionada pela instabilidade no estreito de Ormuz, transformou o canal do Panamá em uma alternativa crucial, elevando seu tráfego em até 20% e gerando um inesperado aumento de receita para o país, que agora se posiciona como um elo ainda mais estratégico na cadeia de abastecimento global.

A crise de segurança em Ormuz forçou navios a buscar alternativas seguras, conforme explicou Eduardo Lugo, presidente e diretor-executivo da consultoria Maritime & Logistics Consulting Group, à BBC Mundo. O canal panamenho se destaca como uma dessas opções, e seu tráfego aumentou em cerca de 11% após o início do conflito. Em dias de pico, a passagem de embarcações pela via marítima cresceu até 20%, segundo dados da Autoridade do canal do Panamá.

Com o aumento da demanda, os preços também subiram. As tarifas variam conforme o tamanho da embarcação, o volume da carga e o tipo de produto transportado. Em um caso excepcional, um navio de transporte de gás chegou a pagar US$ 4 milhões para atravessar a hidrovia. Embora incomum, alguns preços para cruzar o canal dobraram devido a um sistema de leilão de vagas, que permite a empresas sem reserva antecipada uma passagem mais rápida. Nesse mecanismo, a urgência de entrega determina o valor final.

Víctor Vial, diretor financeiro da Autoridade do canal do Panamá, afirmou à BBC News Mundo que o crescimento do tráfego e os recursos adicionais dos leilões devem impulsionar um aumento de receita "entre 10% e 15%". Contudo, Vial alertou para a imprevisibilidade da situação, destacando que "as coisas mudam muito rápido" em cenários como este, e por isso a instituição "ainda não faz cálculos nem altera suas projeções para o ano".

Em meio à crise energética, navios que transportam petróleo e gás natural liquefeito têm substituído, nas últimas semanas, porta-contêineres e outros cargueiros, impulsionados pela alta demanda asiática por petróleo bruto. "A energia proveniente dos Estados Unidos está substituindo os volumes que antes eram enviados para a Ásia a partir de cargas vindas do Golfo", detalha Marc Gilbert, líder global do Centro de Geopolítica do Boston Consulting Group (BCG), uma das principais consultorias de transporte marítimo.

As cargas de petróleo americano que cruzam o canal do Panamá estão próximas de atingir o nível mais alto em quatro anos. Refinarias asiáticas buscam garantir o abastecimento em meio a um conflito sem previsão de término. Gilbert explicou à BBC News Mundo que usar o canal elevou os custos do transporte marítimo por diversos motivos: a viagem dos Estados Unidos a destinos asiáticos é mais longa, o pedágio de passagem é maior, e os crescentes atrasos nas eclusas do canal tornam a operação mais cara em comparação com o trajeto por Ormuz.

A situação atual demonstra que a falha de uma rota marítima exige a adaptação de todo o sistema. Gilbert enfatiza que as empresas precisam diversificar não apenas as rotas marítimas, mas todos os meios de transporte. Além disso, é crucial revisar a capacidade de armazenamento e formação de estoques, incorporando tecnologias para compartilhar dados de localização de navios em tempo real. A fragilidade das cadeias globais de abastecimento, evidenciada pela pandemia e agora pelo conflito no Irã, gera rupturas com efeitos imprevisíveis.

A importância do canal para a economia do Panamá

Embora não seja a única, o canal do Panamá é um dos grandes motores econômicos do país. Por essa via de apenas 80 quilômetros de largura, que conecta o Atlântico com o Pacífico, transita cerca de 3% de todo o comércio marítimo global.

Em sua história recente, o canal enfrentou desafios, como a seca sem precedentes de 2023, que impactou o tráfego. No entanto, o clima atual joga a seu favor, com chuvas permitindo uma melhor resposta ao aumento repentino da demanda pela guerra no Irã. Quando o canal gera melhores resultados, a economia panamenha se beneficia diretamente.

A Constituição do Panamá determina que o canal transfira anualmente seus excedentes econômicos – os lucros líquidos – ao Tesouro Nacional, após cobrir custos operacionais, investimentos e manutenção. No ano fiscal de 2025, o canal gerou receitas de cerca de US$ 5,7 bilhões. Desse total, a contribuição direta aos cofres públicos panamenhos foi de aproximadamente US$ 3 bilhões. Essa contribuição representou 3,4% do Produto Interno Bruto (PIB) do Panamá.

À primeira vista, o valor pode parecer modesto, mas os benefícios indiretos são substanciais, incluindo toda a indústria logística que orbita o canal, atividades portuárias e ferroviárias, além do comércio gerado pela Zona Livre de Colón. O comércio é a espinha dorsal da economia panamenha, e o canal é uma peça fundamental para toda essa engrenagem. Um aumento nas receitas e lucros líquidos neste ano representa uma injeção de recursos não prevista, transformando uma crise no Oriente Médio em uma oportunidade de crescimento para o Panamá.

Gostou desta notícia?

Entre no nosso grupo do WhatsApp!

Receba as principais notícias em primeira mão, direto no seu celular. É grátis!

📲 Quero entrar no grupo

Compartilhe esta matéria

Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar!

Deixe seu comentário