CONCORRÊNCIA EM RISCO

Cade investiga exclusividade e Keeta paralisa expansão no Rio

Danilo Mansano, vice-presidente da Keeta, em entrevista sobre o mercado de delivery no Brasil.
Danilo Mansano, vice-presidente da Keeta, destaca o potencial do Brasil no mercado de delivery e a luta contra práticas anticompetitivas.

Keeta, braço da gigante chinesa Meituan, acusa plataforma líder de mercado de práticas anticompetitivas e denuncia ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica, enquanto busca reversão na Justiça por entraves que afetam investimentos e o livre mercado de delivery no país.

A Keeta, braço internacional da gigante chinesa Meituan, suspendeu sua expansão para o Rio de Janeiro e acusa a líder de mercado de práticas anticompetitivas, como acordos de exclusividade e banimento de restaurantes. Esta situação, que impede o livre desenvolvimento do mercado de delivery no Brasil, levou a Keeta a denunciar o caso ao Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) em agosto de 2025, resultando na abertura de um inquérito administrativo em março de 2026, com desdobramentos no mês seguinte, abril de 2026. A companhia, que previa investir R$ 400 milhões na cidade e já tinha 17.000 estabelecimentos cadastrados, percebeu que a taxa de exclusividade era superior a 55% no Rio de Janeiro, um entrave que compromete a concorrência e a oferta ao consumidor, nesta domingo, 10 de maio de 2026. Enquanto o caso está sob julgamento, a Keeta já obteve uma vitória em primeira instância na Justiça de São Paulo contra a plataforma que impõe o banimento, buscando garantir um ambiente de mercado mais equitativo.

O vice-presidente da Keeta, Danilo Mansano, 40 anos, revelou que o Brasil tem potencial para dobrar o mercado de delivery nos próximos dois anos, passando da 5ª para a 4ª posição global. Contudo, essa projeção se choca com as dificuldades impostas pela concorrência desleal. A Keeta, que chegou ao Brasil em 2025, é o braço internacional da chinesa Meituan, a maior empresa de delivery do mundo, processando entre 80 milhões e 100 milhões de pedidos de comida por dia globalmente.

Atualmente, 50 milhões de brasileiros realizam ao menos um pedido de comida por mês. Mansano acredita que esse total pode atingir 120 milhões. A empresa foca também em aumentar a frequência de pedidos, que hoje é de três por mês, em contraste com mais de sete na China, e em converter downloads em usuários ativos. A Keeta já acumula mais de 5 milhões de downloads do aplicativo nas regiões onde opera, incluindo a Baixada Santista e São Paulo, além de outras oito cidades paulistas.

Para conquistar clientes e restaurantes parceiros, a Keeta investe em tecnologia avançada. No Brasil, entregadores utilizam um capacete inteligente para acessar informações sem desviar o olhar do celular. Em Hong Kong, a empresa já emprega drones autônomos para entregas, totalizando mais de um milhão de pedidos, com um sistema robótico interno para retirada dos produtos em armários específicos. Globalmente, a Keeta processa um bilhão de rotas de entrega por segundo, garantindo eficiência e rapidez, com tempo médio de entrega de 31 minutos no Brasil. Caso o prazo não seja cumprido, o consumidor recebe cupons de recompensa.

A empresa destaca seu foco no desenvolvimento dos parceiros comerciais. Com mais de 40.000 estabelecimentos na Baixada Santista e em São Paulo, a Keeta busca garantir o crescimento de novos consumidores para os restaurantes, sem canibalizar seus canais de venda existentes. Para isso, a companhia mantém uma equipe de mais de 1.000 funcionários no Brasil que atua diretamente com os estabelecimentos.

A Inteligência Artificial (IA) é um pilar da operação da Keeta. Ela é empregada internamente para otimizar rotas logísticas e sugerir pratos ou promoções personalizadas aos restaurantes. Além disso, uma assistente pessoal de IA permite que colaboradores acessem dados importantes instantaneamente, como a categoria de pizza mais vendida em uma região específica de Santo Amaro, em São Paulo, por exemplo. O CEO da Meituan, Wang Xing, incentiva a visão de longo prazo, prevendo um futuro onde robôs serão a maioria no mundo e a robótica aplicada ao food service será fundamental, área em que a Keeta já é uma das principais investidoras.

As dificuldades encontradas no Brasil levaram a Keeta a reavaliar sua estratégia. Embora inicialmente esperasse uma taxa de exclusividade de 8% a 10% da base de restaurantes, um levantamento de mais de seis meses revelou que mais de 50% das redes com pelo menos cinco lojas estavam sob contratos de exclusividade ou banimento, impedindo a atuação da Keeta. Essa realidade, considerada um “mercado disfuncional” pela empresa, com bloqueio de entrantes e de concorrência, motivou as ações legais. A Keeta, que opera em 7 países (5 no Oriente Médio, Brasil, Hong Kong, além da China com a Meituan), não encontra esse tipo de problema em outras nações. Na China, por exemplo, o governo proíbe qualquer exclusividade desde 2021.

Apesar dos desafios, a Keeta reitera seu comprometimento com o Brasil, mantendo o investimento inicial previsto de R$ 5,6 bilhões. A empresa confia nas autoridades brasileiras para garantir um ambiente competitivo e saudável para o setor de delivery, que além de comida, também inclui a entrega de itens de supermercado.

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