HOMENS PRECISAM CHORAR
Bruno Gagliasso: homens são ensinados a reprimir emoções, alimentando violência
Ator reflete sobre masculinidade tóxica e a importância da saúde mental masculina, citando experiências pessoais e o papel em 'Impuros'.
O ator Bruno Gagliasso destacou, em entrevista ao Segundo Caderno, do jornal O Globo, que os homens frequentemente são educados para ocultar suas emoções e reprimir sentimentos. Este comportamento, segundo ele, contribui para a perpetuação de padrões de violência, intolerância e dificuldades no manejo de afetos, um tema que ganhou ainda mais relevância em sua vida após experiências pessoais marcantes.
A reflexão sobre masculinidade, paternidade, adoção, racismo e saúde mental surge em meio ao lançamento de 'Impuros', série do Globoplay onde Gagliasso dá vida ao criminoso Evangelista. Na trama, a brutalidade do personagem é vista pelo ator como um reflexo direto da construção cultural da masculinidade, que ensina desde cedo que demonstrar fragilidade, tristeza ou vulnerabilidade é inadequado.

'Homens foram criados sem acessar suas emoções. A gente aprende que não pode chorar, que não pode demonstrar medo, fraqueza ou tristeza', afirma Gagliasso. Ele relata que a morte prematura de sua mãe, vítima de câncer durante sua adolescência, foi um momento de profunda dor onde a expressão de sentimentos foi reprimida, mas que, com o tempo, transformou sua percepção sobre o universo afetivo masculino.
Ao comentar a construção de personagens complexos, como o de 'Impuros', Gagliasso enfatiza a busca pela compreensão das emoções e fragilidades humanas. Ele observa que, por trás de figuras de violência extrema, existe uma realidade de medo e insegurança que é universal: 'Todo mundo tem medo, insegurança, dor'.
A paternidade, com seus filhos Titi, Bless e Zyan, também intensificou seu engajamento com discussões cruciais como racismo e responsabilidade social. A experiência de ver sua filha Titi ser vítima de ataques racistas nas redes sociais, um episódio que o atravessa profundamente, ampliou sua consciência sobre a desigualdade racial no Brasil e a importância de reconhecer privilégios.
Gagliasso defende a necessidade de os homens aprenderem a lidar melhor com suas emoções, incluindo o choro, e critica os padrões tradicionais de masculinidade que associam sensibilidade à fraqueza. 'Ser sensível não diminui ninguém', ressalta.
A conversa sobre saúde mental, segundo o ator, precisa ser ampliada entre os homens, que muitas vezes 'adoecem em silêncio' devido à repressão emocional. Ele percebe um aumento da intolerância e do discurso de ódio no cenário político e social do Brasil, o que impacta diretamente as relações interpessoais e familiares.
Para ele, a transformação dessas dinâmicas passa pela educação emocional das novas gerações, ensinando meninos a acessar seus sentimentos e rompendo com padrões de agressividade e repressão. O amadurecimento e a experiência de vida também trouxeram maior segurança em relação à própria imagem e identidade, especialmente diante da pressão estética na carreira artística.
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