POTENCIAL DE TERRAS RARAS

Brasil tem potencial de se tornar um grande fornecedor global de terras raras, mas enfrenta desafios de processamento

Amostra de argila contendo terras raras em Poços de Caldas, MG
Amostra de argila com compostos de terras raras retiradas na caldeira vulcânica de Poços de Caldas, MG

Estimativas apontam para a segunda maior reserva mundial, atrás apenas da China. No entanto, a produção em escala industrial ainda é um gargalo para o país.

O Brasil detém um tesouro escondido sob o solo: mais de 20 milhões de toneladas de elementos de terras raras, o que o posiciona como a segunda maior reserva global, superando a Índia e ficando atrás apenas da China. Essa descoberta desperta um interesse crescente de países como os Estados Unidos, que buscam diversificar suas fontes de suprimento. Embora o potencial brasileiro seja imenso, a transformação dessas riquezas em produtos de alta tecnologia enfrenta obstáculos significativos na produção em escala industrial, um gargalo que precisa ser superado para que o país possa capitalizar essa oportunidade. Essa situação é acompanhada de perto por outras nações, como a Austrália, que também buscam consolidar sua presença no mercado. Estudos indicam que elementos cruciais como o neodímio e o praseodímio, essenciais para a fabricação de dispositivos eletrônicos e tecnologias verdes, são encontrados em formações geológicas brasileiras. No entanto, o processo para extrair e refinar esses elementos, separando-os de dezenas de outros compostos, é complexo e dispendioso. Pablo Cesario, presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), explicou que a transição da matéria-prima bruta para um óxido de terra rara com alta pureza envolve aproximadamente 400 processos industriais. A capacidade de realizar esses processos em escala laboratorial existe, mas a tecnologia para a produção industrial em larga escala é uma competência rara, detida por poucos no mundo. Para que o Brasil possa se consolidar como um fornecedor global confiável, é fundamental investir em infraestrutura robusta, impulsionar a pesquisa tecnológica e garantir um fornecimento de energia acessível e abundante. Essa visão é compartilhada por Julio Nery, diretor de assuntos de mineração do Ibram, que ressalta a importância dessas frentes para o desenvolvimento do setor. O interesse internacional é palpável. Um porta-voz da embaixada dos Estados Unidos, falando sob condição de anonimato, mencionou que o Brasil é visto como um destino com potencial de bilhões em investimentos, com mais de US$ 600 milhões (cerca de R$ 3 bilhões) já aplicados. Em um movimento estratégico, Washington assinou um memorando de entendimento com o estado de Goiás em março, visando incentivar a mineração de terras raras na região. Reforçando essa tendência, a empresa americana USA Rare Earth adquiriu a Serra Verde, responsável pela única mina em operação no Brasil, localizada em Goiás, por cerca de US$ 2,8 bilhões (aproximadamente R$ 14 bilhões) em abril. A Austrália também marcou sua presença com a Foxfire Metals, enquanto a China mantém participação em um projeto na Amazônia, segundo informações do Ibram. Em relação ao papel do governo, o presidente Lula estendeu um convite ao presidente americano Donald Trump para que os Estados Unidos se associem ao Brasil na exploração de terras raras, em um momento de redefinição das relações bilaterais. Uma nova legislação concede ao Executivo o poder de veto sobre acordos com empresas estrangeiras, com base em critérios de segurança econômica ou geopolítica. Essa prerrogativa gerou apreensão no setor privado, com Pablo Cesario expressando preocupação de que o governo tenha a palavra final em todas as decisões. A expectativa é que o texto legislativo possa ser revisado pelo Senado, onde o debate sobre a exploração de recursos estratégicos está em andamento, com a definição de datas ainda pendente.

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