COMBATE EFICAZ

Brasil expande uso de Wolbachia contra a dengue

Mosquitos Aedes aegypti em gaiolas de laboratório da Wolbito para o projeto Wolbachia
Mosquitos Aedes aegypti são mantidos em gaiolas para que pesquisadores coletem seus ovos, em um laboratório da empresa de biotecnologia Wolbito. — Foto: Nelson Almeida/AFP

Ministério da Saúde levará técnica que protege milhões a 54 cidades em 2026. Casos já caíram 89% em piloto.

O combate à dengue no Brasil ganhou um impulso significativo nesta quinta-feira, 14 de maio de 2026, com a confirmação, pelo governo brasileiro e Ministério da Saúde, da expansão do método Wolbachia para 54 municípios ainda este ano, projetando chegar a 70 até o final de 2026. A estratégia, que utiliza mosquitos Aedes aegypti portadores da bactéria Wolbachia para bloquear a transmissão do vírus da dengue, representa uma esperança crucial para milhões de brasileiros em um país que registrou mais de 6.000 mortes pela doença em 2024. A iniciativa busca replicar a redução notável de casos já observada em áreas piloto, prometendo um alívio fundamental para a saúde pública.

No coração dessa inovação, o cientista Luciano Moreira, de 59 anos, manuseia com dedicação caixas de vidro onde milhões de mosquitos “antidengue” se agitam. Ele é o renomado entomólogo por trás dos “wolbitos”, como carinhosamente chama os Aedes aegypti inoculados com a Wolbachia – uma bactéria que os impede de desenvolver e, consequentemente, transmitir o vírus da dengue, zika e chikungunya.

Moreira, reconhecido em 2025 pela revista Nature entre os dez cientistas de maior destaque global e, neste ano, pela Time como uma das 100 pessoas mais influentes, lidera a biofábrica de Curitiba, o maior criadouro de “wolbitos” do mundo. “Estamos em um momento decisivo para conseguirmos nos expandir pelo Brasil”, afirma ele, enquanto mantém os segredos técnicos da fábrica protegidos.

A técnica consiste na liberação desses “wolbitos” em áreas urbanas. Em poucos meses, através da transmissão geracional, eles substituem a população de mosquitos transmissores da dengue, criando uma barreira natural contra a doença. Embora presente em 15 países, o método alcançou no Brasil o maior número de pessoas protegidas desde que Moreira iniciou os testes em 2011: um total de seis milhões de indivíduos. A missão de uma cientista para conter a dengue no Brasil, exemplificada por iniciativas similares, ressalta a importância dessas abordagens inovadoras.

Apesar do sucesso, o desafio permanece imenso. O Brasil, o país mais afetado pela dengue em 2024 com mais de 6.000 mortes – embora a incidência tenha sido menor no ano anterior – ainda tem 207 milhões de cidadãos a serem protegidos. A biofábrica, inaugurada em 2025 com o apoio da Fundação Oswaldo Cruz e da ONG World Mosquito Program (WMP), é um centro de alta tecnologia.

Em sua sala de reprodução, 70 funcionários trabalham em um ambiente aquecido, ideal para os mosquitos confinados em grandes gaiolas. Alimentados com sangue de cavalo e água com açúcar, exalam um cheiro forte. A produção semanal atinge impressionantes cem milhões de ovos infectados com Wolbachia, que as fêmeas transmitem à prole. Esses ovos, embalados em cápsulas, são enviados a centros municipais para eclodir e serem liberados.

Os resultados em Niterói e Campo Grande (Centro-Oeste), onde estudos científicos aprofundados foram realizados, são espetaculares: quedas de 89% e 63% nos casos de dengue, respectivamente. “Antes não tinha dengue” em regiões como o sul do país, mais frias, mas agora a doença avança, impulsionada pelas mudanças climáticas, alerta Moreira, que é fundador da biofábrica e assessor do WMP.

Apesar do governo de Luiz Inácio Lula da Silva ter reconhecido o método Wolbachia como uma medida de saúde pública vital, o ritmo burocrático do Estado não acompanha a velocidade de reprodução dos mosquitos. Os ovos produzidos em Curitiba são distribuídos conforme a demanda das autoridades sanitárias, mas a fábrica precisou reduzir a produção devido a uma demanda insuficiente do Ministério da Saúde.

A bióloga e epidemiologista Ludimila Raupp, professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, enfatiza a “urgência” de expandir a Wolbachia. No entanto, ela aponta que a cobertura nacional “não é simples”, citando falhas graves e “descoordenação institucional” na implementação no Rio de Janeiro. A cidade registrou resultados modestos porque as equipes de saúde fizeram uso intensivo de larvicidas, prejudiciais aos “wolbitos”. A violência do crime organizado também dificultou a ação em favelas cariocas, segundo Moreira.

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, reconhece os “desafios técnicos, operacionais, logísticos e financeiros” na expansão. Contudo, defende os avanços planejados: em 2026, a técnica será implementada em 54 municípios, totalizando 70 até o final do ano. Moreira reforça que a técnica leva alguns anos para mostrar resultados plenos e não é uma “fórmula mágica”, mas uma estratégia complementar à vacina e outras medidas.

Os “wolbitos” atuais são descendentes de mosquitos Aedes aegypti inoculados com Wolbachia há quase duas décadas na Austrália, onde Moreira realizou seu pós-doutorado em entomologia. A equipe de pesquisa da qual ele fazia parte descobriu, em 2008, que essa bactéria, comum em outros insetos, bloqueia eficazmente a dengue, a zika e a chikungunya, abrindo caminho para essa esperança no combate às arboviroses.

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