XENOTRANSPLANTE NO BRASIL

Brasil avança para criação de plantel de porcos para transplantes de órgãos no SUS

Porcos clonados sendo preparados para uso em transplantes de órgãos
Porcos clonados: saiba como será criação de plantel para uso de órgãos em humanos

Projeto da USP prevê reprodução natural para formar linhagem de doadores. Pesquisadores estimam testes clínicos por volta de 2030.

O projeto de pesquisa para o transplante de órgãos suínos em humanos avança para uma nova etapa: a modificação genética dos animais e o início da reprodução natural. A iniciativa busca formar um plantel capaz de suprir a demanda do SUS, que atualmente possui 48,9 mil pessoas na fila de espera por um transplante. Com investimentos públicos e sucesso nas fases iniciais, os pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) estimam que os primeiros testes clínicos possam ocorrer por volta de 2030, condicionados aos resultados das próximas etapas e às aprovações regulatórias. O estudo deu um passo importante no país com o nascimento do primeiro porco clonado, realizado no Instituto de Zootecnia da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA) em Piracicaba (SP).

A nova estratégia visa reduzir a dependência de clonagens, um procedimento de alto custo, utilizando-as apenas para introduzir novas edições genéticas. A reprodução natural entre os animais será a base para expandir o grupo de doadores de forma sustentável. "Não necessariamente tenho que reclonar esse animal e cada clone ser o doador de órgãos. Eu posso produzir alguns pares de clones, alguns casais, machos e fêmeas, e através de cruzamento natural, estabelecer esse plantel", explica Ernesto Goulart, geneticista da USP e coordenador do estudo. A ideia é utilizar o órgão suíno como um "transplante ponte", mantendo o paciente vivo até que um órgão humano compatível surja, especialmente em casos de urgência como hepatite fulminante.

Apesar do avanço, os xenotransplantes realizados até o momento são poucos e seus resultados continuam sob avaliação, enfrentando desafios importantes como as respostas imunológicas e os riscos infecciosos. Para iniciar a reprodução natural, os pesquisadores planejam um plantel inicial com alguns casais de porcos clonados geneticamente editados. O cronograma prevê o nascimento dos clones modificados até o final de 2026, com gestações em andamento, incluindo a porca em Piracicaba com pelo menos três filhotes esperados. Os animais escolhidos atingem o peso ideal para transplante em sete meses. O início dos cruzamentos depende da maturidade sexual desses primeiros casais, com a formação do plantel por reprodução natural prevista para logo após. Novas clonagens só ocorrerão no futuro para aprimoramentos genéticos. Para abrigar o plantel, foram inaugurados laboratórios na USP com capacidade para dez animais e outro com nível 2 de biossegurança para garantir animais livres de patógenos.

A prioridade dada à reprodução natural em detrimento da clonagem deve-se principalmente ao custo elevado desta última, que pode chegar a milhões de reais. A duplicação genética ficará restrita a momentos estratégicos, como a inativação ou inserção de novos genes, acompanhando os avanços científicos. O nascimento do primeiro porco clonado no Brasil em março de 2026, fruto de quase seis anos de pesquisa, validou o domínio de uma técnica complexa, assegurando soberania nacional e evitando dependência de importações custosas dos Estados Unidos ou da China.

Para que um órgão suíno seja compatível com o corpo humano, ele passa por uma complexa edição genética em células da pele antes da clonagem. Esse processo envolve a inativação de três genes suínos responsáveis por reações de rejeição hiperaguda e a inserção de sete genes humanos para modular a resposta imune e prevenir a formação de coágulos. O primeiro clone suíno, batizado de Boreal, nasceu em março de 2026 e está saudável, com novas gestações em andamento. Embora gestações de clones sejam mais delicadas, evoluem bem.

Apesar das diferenças evolutivas, o porco é considerado a espécie mais promissora para xenotransplante devido a semelhanças anatômicas e fisiológicas com humanos, além da facilidade de manejo, reprodução e domesticação. Seus órgãos apresentam pesos e medidas compatíveis, funcionamento próximo ao humano e atingem o tamanho ideal para transplante em menos tempo. A ciência já utiliza o porco na saúde humana através de válvulas cardíacas e insulina. A pele suína também é usada em casos de queimaduras graves. Registros de transplantes de órgãos suínos em humanos incluem um rim em 2021 em Nova York, um coração em janeiro de 2022 e outro coração em 2023, além de um rim em Boston em 2024, com participação brasileira, considerado um marco.

Esses resultados consolidam pesquisas iniciadas na década de 1960. Após estudos clínicos em humanos, as conclusões serão avaliadas por órgãos reguladores para possível implementação em hospitais públicos e particulares no Brasil. A expectativa é que o xenotransplante possa, em um futuro próximo, prevenir quadros de saúde agravados pela falta de órgãos humanos, oferecendo uma alternativa para pacientes em processo de falência orgânica antes que atinjam o limite crítico.

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