ESPERANÇA E DESAFIO
Brasil avança em terapia CAR-T, mas pacientes morrem na espera
Tratamento revolucionário contra o câncer custa até R$ 4 milhões. Estudo revela entraves logísticos e financeiros no acesso.
Mesmo com uma das maiores revoluções da oncologia ao seu alcance, o Brasil ainda vê pacientes com câncer morrerem na fila de espera por um tratamento que pode custar até R$ 4 milhões por dose. Nesta sábado, 16 de maio de 2026, um estudo aprofundado, liderado pelo oncologista Stephen Stefani e um grupo de especialistas, expôs as graves barreiras de acesso à terapia CAR-T no país, um desafio que se impõe à dignidade de milhares e escancara a urgência de soluções para uma tecnologia capaz de salvar vidas.
A terapia CAR-T, celebrada como uma das maiores inovações recentes na oncologia, já demonstrou taxas de resposta de até 80% em certos tipos de câncer hematológico. Em mais da metade dos casos, os tumores desaparecem por completo, com remissões que podem perdurar por anos.
No entanto, um estudo recente, publicado na renomada revista científica Frontiers in Hematology, alerta que, apesar de todo o potencial, inúmeros pacientes brasileiros não conseguem acessar o tratamento a tempo. O oncologista Stephen Stefani, do grupo Oncoclínicas e da Americas Health Foundation, um dos principais autores da pesquisa, é categórico: "Parte dos pacientes sequer consegue chegar ao tratamento: muitos pioram clinicamente ou morrem antes de obter acesso à CAR-T."
O levantamento, que une vozes influentes da oncologia, saúde pública, regulação sanitária e defesa dos direitos dos pacientes, mapeia os principais obstáculos à implementação plena da terapia no país. A equipe de autores inclui desde médicos pioneiros na CAR-T no Brasil até ex-dirigentes do Ministério da Saúde e da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).
Apesar dos desafios, o Brasil se destaca como o único país da América Latina com acesso estruturado à CAR-T.
O que é a CAR-T
A terapia CAR-T atua como uma engenharia refinada do sistema imunológico. Primeiramente, médicos coletam linfócitos T, as células de defesa do próprio paciente. Em laboratório, estas células sofrem uma modificação genética que as capacita a identificar e atacar células tumorais específicas. Posteriormente, são reinfundidas no organismo, prontas para o combate. Stefani ilustra o processo como a criação de um "super soldado" imunológico. "Nós retiramos os linfócitos T do paciente, reprogramamos essas células para reconhecer o tumor e depois as reinfundimos no organismo já preparadas para atacá-lo", detalha. Atualmente, quatro terapias CAR-T receberam aprovação no Brasil entre 2022 e 2024, abrangendo tipos de leucemia, linfoma e mieloma múltiplo.
Símbolo da oncologia moderna
Para os autores do estudo, o impacto clínico da terapia elevou a CAR-T a um dos maiores símbolos da oncologia moderna. O próprio Stephen Stefani recorda, com emoção, o caso de uma paciente que participou dos estudos iniciais da terapia: "Uma das cenas mais emocionantes que vivi na oncologia foi ver uma paciente tratada com CAR-T voltar anos depois perguntando se já poderia engravidar. Era uma jovem com leucemia que antes não tinha perspectiva de sobreviver. Anos depois, ela estava planejando ter filhos." Este relato evidencia o poder transformador do tratamento, que vai além da cura, restaurando a dignidade e o futuro de pessoas.
Custo milionário e acesso desigual
Apesar dos resultados promissores, o acesso à CAR-T permanece severamente restrito. O estudo revela que o custo de uma única dose pode superar US$ 500 mil, equivalente a aproximadamente R$ 2,8 milhões. Em entrevista, Stefani aponta que alguns tratamentos específicos podem atingir a cifra de R$ 4 milhões. Além do valor exorbitante, a terapia demanda centros especializados, equipes multidisciplinares e uma infraestrutura hospitalar de alta complexidade. "Não basta ter dinheiro para pagar. É preciso ter estrutura instalada e profissionais adequadamente treinados", reitera o oncologista.
No setor privado, o ônus financeiro recai sobre as operadoras de saúde. No Sistema Único de Saúde (SUS), a ausência de modelos claros de financiamento e incorporação da terapia força muitos pacientes a buscar seus direitos na Justiça. "Hoje, 100% dos casos brigam judicialmente e ganham", salienta Stefani, criticando: "A judicialização não conserta o sistema. Ela conserta o problema daquele paciente", criando um acesso desigual e fragmentado.
O desafio de fazer CAR-T em um país continental
O estudo também lança luz sobre um entrave crucial, muitas vezes subestimado: a complexidade logística. Atualmente, as células coletadas dos pacientes brasileiros precisam ser transportadas para laboratórios no exterior, como nos Estados Unidos e na Holanda, para a reprogramação genética, antes de retornarem ao Brasil para a infusão. Em um país de dimensões continentais, essa dinâmica gera desafios adicionais. Stefani exemplifica a realidade: "Em algumas regiões do país, haverá pacientes que precisarão passar até dois dias em um barco para chegar a um centro habilitado." Ele adverte que "uma falha logística simples, como a perda de uma conexão aérea, pode comprometer todo o material biológico do paciente", inviabilizando o tratamento. Para mitigar esses riscos, o estudo preconiza a criação de protocolos nacionais, a ampliação dos centros habilitados, o desenvolvimento de sistemas de acompanhamento robustos e o investimento em modelos de financiamento específicos para terapias de alto custo.
Produção nacional pode reduzir custos
Uma das principais esperanças para democratizar o acesso à CAR-T reside na produção nacional da terapia. O estudo destaca iniciativas de instituições como a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o Instituto Nacional de Câncer (INCA) e a Universidade de São Paulo (USP), em parceria com colaboradores internacionais, que buscam desenvolver versões brasileiras da CAR-T. A meta é tanto reduzir os custos quanto diminuir a dependência de laboratórios estrangeiros. Stefani aponta que exemplos da Índia e da China indicam uma potencial redução de custos em até dez vezes, embora o tratamento ainda se mantenha elevado. Os autores concluem que o Brasil tem o potencial de se tornar uma referência regional em terapias celulares avançadas, mas isso exigirá investimentos substanciais em infraestrutura, qualificação profissional e uma profunda reorganização do sistema de saúde. "Não basta a terapia funcionar. Ela precisa caber na realidade brasileira", finaliza Stefani, encapsulando o dilema.
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