EDUCACAO NO BRASIL

Brasil avança em consensos sobre educação, mas desafios persistem

Priscila Cruz falando em um evento.
Priscila Cruz, cofundadora e presidente do Todos Pela Educação, destaca a importância estratégica da educação para o desenvolvimento do país.

Apesar de políticas importantes consolidadas como Fundeb e BNCC, metade dos estudantes do ensino médio público não alcança aprendizado adequado. Especialistas apontam a necessidade de políticas de recomposição e valorização docente.

O Brasil construiu avanços significativos e um consenso sobre os caminhos a serem trilhados para aprimorar a educação pública. No entanto, a transformação completa do sistema educacional ainda enfrenta obstáculos consideráveis, como a defasagem de aprendizado que afeta milhões de estudantes. A constatação, feita por especialistas e líderes do setor educacional, reforça a urgência de políticas focadas na recomposição do aprendizado e na valorização dos professores.

Felizmente, a palavra 'consenso' ganhou força no ensino público brasileiro. O próximo governo do Brasil não herdará um cenário de incertezas pedagógicas. Pelo contrário, o País acumulou conhecimento sobre o que é preciso para uma educação de qualidade. Após anos de debates, há concordância sobre a importância de alfabetizar todas as crianças na idade certa, melhorar a formação de docentes, fortalecer os mecanismos de avaliação, expandir o ensino técnico e combater desigualdades históricas. Esta sexta-feira, 12/06/2026, marca um momento de reflexão sobre esses progressos e os desafios remanescentes.

Nesse sentido, o Brasil já consolidou políticas essenciais que pavimentam o caminho. O Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) são exemplos de marcos importantes. A alfabetização voltou ao centro das prioridades, a educação integral foi ampliada e uma prova nacional para avaliar professores foi criada, além de investimentos no ensino profissional. Contudo, a realidade ainda apresenta um dado alarmante: mais de uma década na escola sem o domínio do básico.

Um dos indicadores mais preocupantes é que apenas 4,5% dos estudantes do ensino médio público concluem essa etapa com aprendizado adequado em Português e Matemática. Em diversas salas de aula, alunos apresentam defasagens de aprendizagem que variam de quatro a cinco anos. Um professor do 9º ano, por exemplo, pode se deparar com estudantes que mal dominam habilidades esperadas nos anos iniciais do ensino fundamental, ao lado de outros que estão em níveis intermediários e um grupo mais próximo do currículo previsto. Este é um desafio estrutural, que a pandemia de Covid-19 apenas exacerbou em uma rede pública vasta e heterogênea como a brasileira.

Estudantes em sala de aula no Brasil

A ausência de uma política robusta de recomposição da aprendizagem, especialmente voltada aos alunos que ficaram para trás, dificulta a obtenção de melhorias consistentes nos resultados educacionais. Para que a aprendizagem seja de fato o foco, duas questões cruciais precisam ser abordadas.

A primeira diz respeito à eficácia das avaliações atuais. Embora o Brasil tenha desenvolvido um sistema de avaliação robusto, com indicadores como o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) e o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), que foram fundamentais para expor desigualdades e criar uma cultura de monitoramento, especialistas alertam para sinais de desgaste. Avaliações baseadas predominantemente em múltipla escolha, com baixa exigência em alguns itens e dificuldade em medir competências complexas, somadas ao risco de 'treinamento para a prova' sem aprofundamento real do aprendizado, levantam preocupações.

A segunda questão concerne aos professores. Como elevar a qualidade do ensino se uma parcela significativa de docentes não recebe formação adequada para ensinar? Dados recentes da Prova Nacional Docente revelaram que mais de um terço dos professores avaliados não atingiu o nível básico para lecionar. Paralelamente, o exame que avaliou cursos de licenciatura indicou que mais de 60% das graduações a distância, que se proliferaram no País nos últimos anos, receberam as piores notas.

Enfrentar esse problema exige transformar uma profissão historicamente desvalorizada em uma carreira atraente para os jovens e admirada pela sociedade. Isso envolve rever um sistema universitário que, há anos, apresenta resultados insatisfi láveis. A falta de um salto significativo nas escolas brasileiras não se deve à escassez de soluções, mas à ausência de uma vontade política generalizada.

Como pontuou Denis Mizne, CEO da Fundação Lemann, em um evento promovido pelo Estadão, é fundamental que existam 'lideranças obcecadas em resolver o problema da educação'. Essa obsessão, vista em países como Coreia e Cingapura, é o que impulsiona o desenvolvimento. A presidente-executiva do Todos Pela Educação, Priscila Cruz, reforçou que 'nenhum país se arrependeu de priorizar a educação'. Embora pareça óbvio, essa compreensão ainda não se consolidou totalmente no Brasil. Investir em educação pública de qualidade é condição indispensável para o crescimento econômico, o aumento da produtividade, a redução da desigualdade e a formação de profissionais aptos a lidar com um mundo cada vez mais tecnológico. Afinal, nenhum projeto de país prospera sem uma educação sólida para a maioria de seus cidadãos.

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