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Avelleda: Cidade inteligente prioriza pessoas, não carros

Pessoas atravessando em faixa de pedestres, com prédios ao fundo, simbolizando a mobilidade urbana centrada no pedestre.
População em faixa de pedestre: Sérgio Avelleda defende que cidades inteligentes priorizem as pessoas.

Especialista do Insper alerta que planejamento urbano atual causa congestionamentos e mortes, defendendo mobilidade centrada no ser humano.

O especialista Sérgio Avelleda, coordenador do núcleo de mobilidade urbana do laboratório Arq. Futuro de Cidades, do Insper, defendeu que as cidades inteligentes devem priorizar pessoas, e não carros, ao abordar o desafio estrutural da mobilidade urbana brasileira. Durante a São Paulo Innovation Week, realizada nesta segunda-feira, 11/05/2026, pelo jornal O Estado de S. Paulo em parceria com a Prefeitura de São Paulo, Avelleda alertou que o modelo atual intensifica congestionamentos diários e mortes no trânsito, impactando diretamente a qualidade de vida e a dignidade da população. Ele argumenta que o País permanece refém de um planejamento urbano que coloca o automóvel acima das necessidades humanas.

Avelleda ressaltou que o conceito de cidade inteligente transcende a mera adoção de novas tecnologias. Para o coordenador, a verdadeira transformação exige planejamento urbano eficaz, fortalecimento do transporte público e uma drástica redução na dependência de veículos particulares. “Cidade inteligente é aquela que prioriza as pessoas, não os carros”, enfatizou o especialista, sublinhando a urgência de uma mudança de paradigma.

O coordenador do Insper argumenta que os problemas enfrentados atualmente pelas grandes cidades não surgiram por acaso. Ele explica que, ao longo das últimas décadas, a expansão urbana empurrou moradores para áreas mais distantes dos centros econômicos, enquanto os empregos permaneceram concentrados em determinadas regiões da cidade.

“O que vemos hoje é um problema de planejamento urbano. São Paulo desenvolveu o seu planejamento urbano levando as pessoas a residir cada vez mais longe do seu trabalho”, lamentou.

Na avaliação do pesquisador, essa lógica produziu um efeito direto e perverso sobre a mobilidade urbana: o aumento exorbitante do tempo gasto nos deslocamentos diários, uma dependência crescente do automóvel e uma pressão insustentável sobre o sistema viário. Ele afirma categoricamente que ampliar avenidas e criar mais espaço para carros não resolve os congestionamentos; apenas os desloca ou os posterga.

“Não que eu seja contra investir em metrô e em transporte público, ao contrário. Ao mesmo tempo em que a gente investe em metrô, nós temos de investir para trazer as pessoas dos bairros periféricos para virem morar perto do trabalho”, declarou, destacando a necessidade de políticas habitacionais e de descentralização econômica.

O especialista também criticou o que classificou como um modelo “antigo” de desenvolvimento urbano, excessivamente baseado na centralização econômica e na supervalorização do carro particular. De acordo com ele, cidades consideradas mais eficientes ao redor do mundo caminham em direção oposta, priorizando o transporte coletivo de massa, os deslocamentos a pé e o uso da bicicleta, promovendo assim mais qualidade de vida e sustentabilidade.

Ao citar o exemplo de São Paulo, Avelleda lembrou que o município avançou em iniciativas ligadas ao bilhete único e à integração tarifária entre ônibus e metrô. Contudo, avalia que os investimentos ainda seguem insuficientes diante da dimensão colossal da cidade e da complexidade de seus desafios.

“O segundo ponto foi que a cidade decidiu investir no carro como solução principal. Desde a metade do século 20, um pouco antes, São Paulo escolheu viabilizar o automóvel. Ele é um bem estranho, muito eficiente se for pouco usado. Se tem muita gente usando, ele fica ineficiente”, ponderou, elucidando o paradoxo do automóvel em metrópoles.

O pesquisador também comentou a redução de velocidade implantada em vias da capital paulista entre 2013 e 2016. Ele destacou que a medida trouxe resultados positivos na redução de mortes no trânsito, salvando vidas e contribuindo para a segurança viária. “As medidas adotadas de redução de velocidade entre 2013 e 2016 foram eficientes para diminuir a mortalidade no trânsito”, corroborou.

Para Avelleda, o conceito de inovação urbana costuma ser tratado de maneira equivocada quando limitado apenas à tecnologia. Ele reconhece a importância da inteligência artificial e de sistemas capazes de melhorar a gestão das cidades, mas ressalta enfaticamente que nenhuma ferramenta substitui políticas públicas estruturadas e com foco humano.

“A inteligência artificial é uma ferramenta que pode ser maravilhosa se o teu objetivo for ter um processo mais eficiente”, explicou. “Mas, se a sua pergunta for errada, ela vai te dar um lugar errado. Cidade inteligente não é a que usa robô, é a cidade inovadora socialmente”, concluiu, reforçando a primazia do fator humano.

De acordo com o especialista, um dos maiores erros das administrações públicas brasileiras foi acreditar que o aumento do espaço destinado aos carros resolveria os congestionamentos. Na prática, afirma ele, ocorreu justamente o contrário, agravando a fluidez e a poluição. “Aumentar espaço para automóveis dá mais espaço para automóveis”, sentenciou.

O pesquisador também rebateu a ideia de que apenas a eletrificação da frota resolverá os problemas de mobilidade. Embora considere positiva a substituição de veículos movidos a combustíveis fósseis, ele afirmou que a mudança, sozinha, não reduz congestionamentos nem melhora o uso do espaço urbano, sendo uma solução incompleta sem uma visão mais ampla.

“Precisamos trazer ônibus elétrico, mas precisamos fazer com que as pessoas deixem o carro e a moto em casa para andar de ônibus”, afirmou. Ele defendeu investimentos contínuos em corredores exclusivos de ônibus, ciclovias seguras e melhoria da infraestrutura para pedestres. Sérgio Avelleda pontuou que cidades que apostaram em sistemas integrados de transporte coletivo conseguiram reduzir significativamente as mortes no trânsito, evidenciando o impacto direto na vida das pessoas.

Ao falar sobre o futuro das cidades, o pesquisador disse que o crescimento global da frota de veículos representa um desafio adicional e complexo para os grandes centros urbanos. Ele citou estimativas de aumento expressivo do número de automóveis no mundo nas próximas décadas e afirmou que as cidades brasileiras precisarão rever seu modelo de desenvolvimento urgentemente. “A supervalorização do automóvel é uma má notícia”, afirmou. “Nós não podemos fazer transporte público incentivando a compra de automóvel.” Avelleda reforçou que o debate sobre mobilidade urbana precisa deixar de tratar o carro como prioridade absoluta e passar a enxergar o deslocamento de forma mais ampla, humana e sustentável.

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