DEBATE VIRTUAL POLÍTICO
Avatares de IA dominam o debate nas redes sociais durante pré-campanhas
A proliferação de 'synthfakes' desafia a legislação eleitoral e a percepção do eleitor, com figuras como "Dona Maria" acumulando milhões de visualizações e interações em plataformas como Instagram e YouTube.
O cenário das pré-campanhas eleitorais assiste à explosão de uma nova tática nas redes sociais: avatares digitais criados por Inteligência Artificial (IA) inundam o debate político com mensagens e críticas, um fenômeno batizado por especialistas de 'synthfake'. Grupos de esquerda e direita intensificam, nesta terça-feira, 05/05/2026, o uso dessas figuras virtuais para influenciar eleitores, aproveitando as lacunas da legislação e potencialmente minando a capacidade do cidadão de distinguir entre realidade e ficção no processo democrático.
Diferentemente dos já conhecidos 'deepfakes' — que manipulam imagens, áudios ou vídeos de pessoas reais —, os 'synthfakes' consistem na criação de personagens fictícios. Eles simulam indivíduos comuns e emitem opiniões políticas. Essa característica não apenas facilita a produção em larga escala, mas também explora brechas na legislação eleitoral, já que não envolve diretamente o uso indevido da imagem de terceiros, tornando mais complexa sua regulamentação.
Um dos casos mais emblemáticos é o da personagem "Dona Maria". Ela ganhou forte repercussão e se tornou alvo de questionamentos judiciais por parte de partidos de esquerda. Segundo o jornal O Globo, os conteúdos com a avatar alcançaram mais de 102 milhões de visualizações e geraram 10,5 milhões de interações no Instagram em um único mês, revelando o poder de alcance dessas criações.
A figura de "Dona Maria" reproduz uma mulher idosa e negra que se apresenta indignada com a situação do país, criticando o governo Lula com uma linguagem direta, que inclui palavrões. Criada pelo motorista de aplicativo Daniel Cristiano dos Santos, de 37 anos, a personagem possui 776 mil seguidores em sua conta principal no Instagram, além de 31,7 mil inscritos no YouTube, evidenciando sua vasta influência.
"Você aí, já se preparou para o desabastecimento de combustíveis no país? Não? Então, vá se preparando porque o chumbo grosso vem aí. E o que o pai dos pobres (Lula) faz para essa situação não piorar?", questiona Dona Maria em um dos vídeos. Nele, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparece afirmando que "a pessoa precisa aprender a tirar a bunda da cadeira e andar um pouco", mostrando o tom combativo da personagem.
Para o publicitário e pesquisador Francisco Costa, mestre em Tecnologia da Informação pela PUC-SP, o formato "synthfake" se diferencia justamente por não depender de pessoas reais. "Synthfake é criar uma pessoa que não existe e botá-la para dizer o que você quiser, algo que, do ponto de vista da regulamentação, é quase imune, porque não há 'vítima da impostura', ou seja, alguém real cujo direito de imagem foi violado. O que se viola é o direito do espectador de saber que está consumindo ficção, e isso é terreno jurídico muito mais frágil", esclarece Costa, destacando o desafio ético e legal.
Ainda segundo Costa, o sucesso de personagens como "Dona Maria" reside na construção de arquétipos facilmente reconhecíveis pelo público. A imagem da "avó indignada", por exemplo, tende a reduzir resistências e críticas, pois não aparenta vínculo direto com operadores políticos, facilitando a aceitação da mensagem.
Outros perfis seguem essa mesma lógica. Um levantamento no TikTok identificou diversos avatares criados por IA para comentar política. Entre eles, o perfil "IAsmina", com mais de 43 mil seguidores, apresenta uma personagem feminina, branca, loira e com sotaque mineiro. Em seus vídeos, ela aborda temas como a queda do desemprego e compara figuras públicas, descrevendo a primeira-dama Janja Lula da Silva como um "ícone de competência" e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro como "uma figura vazia com apenas ensino médio completo".
A mesma conta opera ainda um segundo avatar, batizado de "Mimi piriguete", representado por uma mulher de cabelos curtos e roupas decotadas. Ela já comentou de forma sarcástica episódios como o julgamento da chamada trama golpista pelo Supremo Tribunal Federal (STF), demonstrando a versatilidade dessas criações.
Outro exemplo notável é o perfil "Sou Zé da Feira", que apresenta um personagem masculino, negro, idoso e nordestino, retratado como vendedor de legumes. Em seus conteúdos, ele orienta o público a não votar em partidos como PL, PP, Republicanos e União Brasil, afirmando: "Eles não estão nem aí para o povo, são sindicato de patrão". Em outro vídeo, ao comentar o tarifaço americano, diz: "O PL e a turma do Bozo traíram o Brasil, pedem taxa para os nossos produtos para tentar salvar o chefe da cadeia, mas a hora deles está chegando".
O personagem "seu Zé" também aparece em outro perfil, denominado "Renderizei IA", em um cenário que simula a seca no sertão nordestino. Vestindo camisa vermelha com a estrela do PT, ele ironiza a alta dos combustíveis: "Estou andando a pé porque nosso painho mandou, a gasolina subiu o preço, mas pelo menos a gente faz exercício".
Por trás dessa complexa produção, segundo João Archegas, coordenador do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio), está o uso combinado de diferentes ferramentas de inteligência artificial. Além disso, o custo de produção tende a ser significativamente inferior ao de conteúdos tradicionais, democratizando o acesso a essa forma de propaganda.
"Usar inteligência artificial está ficando cada vez mais barato e acessível. Nem todo mundo consegue usar inteligência artificial de uma forma organizada, estruturada ou tem uma capacitação para isso, mas, cada vez mais, isso já não importa tanto", pontua Archegas, alertando para a facilidade de criação.
Nas plataformas digitais, esse tipo de conteúdo geralmente é identificado com o rótulo "mídia gerada por IA", conforme exigência legal. A legislação permite a circulação desse material, desde que o uso da tecnologia seja informado. No entanto, publicações podem ser questionadas judicialmente caso sejam interpretadas como propaganda eleitoral irregular, desinformativa ou com caráter negativo.
Autores de conteúdos também podem ser responsabilizados se as postagens forem consideradas desinformativas ou tiverem caráter negativo direcionado a adversários políticos. É o que destaca Delmiro Campos, advogado e ex-desembargador do Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco, sublinhando os riscos legais.
"Há vedação especialmente quando esse uso estiver associado à produção de conteúdo negativo, desinformativo ou destinado a manipular artificialmente a percepção do eleitor", enfatiza Campos, reforçando a seriedade da questão.
Procurado, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) informou que "a interpretação e a aplicação das normas eleitorais" ocorrem nos processos "regularmente submetidos à Justiça Eleitoral, por meio de decisão judicial fundamentada". A corte sinaliza que cada caso será analisado individualmente, o que mantém a incerteza sobre o futuro da regulamentação.
Gostou desta notícia?
Entre no nosso grupo do WhatsApp!
Receba as principais notícias em primeira mão, direto no seu celular. É grátis!
📲 Quero entrar no grupo
Comentários (0)
Deixe seu comentário