COMBUSTÍVEL E CUIDADO

Aumento de etanol na gasolina gera alerta da indústria e governo adia votação

Indústria reage ao avanço do etanol a 32% | notícias do rio grande do norte etanol
Representantes da indústria automotiva alertam para os riscos do aumento do etanol na gasolina.

Proposta de elevar mistura para 32% levanta sérias dúvidas técnicas sobre impacto na frota nacional e durabilidade dos veículos. Deliberação foi adiada para 11 de maio.

Uma nova frente de tensão se abriu entre o governo federal e a indústria automotiva diante da proposta de elevar a mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina de 30% para 32%. A deliberação sobre o chamado E32, que deveria ocorrer nesta quinta-feira, 07 de maio de 2026, no Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), foi adiada para a próxima segunda-feira, 11 de maio de 2026. A medida, defendida pelo governo para reduzir a dependência de importação de gasolina e conter o impacto da alta internacional dos preços dos combustíveis, preocupa entidades que representam montadoras, fabricantes de motocicletas e fornecedores de autopeças, que alertam para riscos de danos e desgaste prematuro em milhões de veículos da frota nacional.

O objetivo do governo é claro: diminuir a dependência de gasolina importada, cujo custo subiu 61% desde o início do conflito no Oriente Médio, segundo estimativa da Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP). O Ministério de Minas e Energia (MME) calcula que o E32, temporariamente, poderá reduzir em cerca de 454 milhões de litros a necessidade de importação de gasolina ao longo de 180 dias, além de diminuir as emissões em aproximadamente 552 mil toneladas de CO₂. A proposta conta com o apoio dos Ministérios da Agricultura e Pecuária e do Meio Ambiente.

Contudo, o setor automotivo questiona veementemente a falta de validações técnicas robustas para concentrações de etanol superiores a 30%. Representantes da indústria argumentam que, para uma mistura de 32%, seriam necessários testes de funcionamento que abrangessem até 34%, devido às margens de tolerância das normas técnicas. Tais ensaios, alegam, não foram realizados de forma completa ou abrangente.

Em um ofício enviado ao Ministério de Minas e Energia, entidades como Anfavea, Abeifa e Sindipeças, embora apoiando o uso do etanol, alertam para os “desafios de engenharia” que teores acima de 30% impõem. A frota circulante atual não foi projetada para níveis tão elevados de biocombustível, o que gera preocupações com o desgaste prematuro de mangueiras, vedações e outros componentes metálicos do sistema de combustível. Há um risco real de corrosão e comprometimento da durabilidade de equipamentos não adaptados, especialmente para as tecnologias dedicadas exclusivamente à gasolina.

O diretor da Abraciclo, Sergio Oliveira, expressou sua preocupação com a ausência de consulta prévia ao setor de motocicletas. Ele ressaltou que, apesar do apoio geral ao etanol, a ampliação pode ter impactos técnicos severos sobre veículos movidos unicamente a gasolina, citando falhas de dirigibilidade, como dificuldades de aceleração e partidas a frio, já observadas em avaliações anteriores do E30. A frota nacional, com mais de 60 milhões de veículos, inclui aproximadamente 12% dos automóveis e 70% das motocicletas que dependem exclusivamente de gasolina.

Em resposta, o governo afirma que o Instituto Mauá de Tecnologia realizou testes em 2025 com misturas E30 e E32 em veículos leves e motocicletas, tanto flex quanto a gasolina. No entanto, as associações da indústria contrapõem que esses ensaios se focaram predominantemente em desempenho e dirigibilidade, sem incluir avaliações exaustivas de emissões, autonomia e o crucial desgaste prolongado para concentrações equivalentes ao E34, que é o limite da tolerância.

Este debate ocorre enquanto o Brasil já se destaca globalmente com um dos maiores percentuais de etanol na gasolina. Para efeito de comparação, nos Estados Unidos, a gasolina E10 é predominante; na União Europeia, o uso se concentra em E5 e E10; e países do Mercosul, como Argentina e Uruguai, operam com misturas próximas a E12 e E10, respectivamente. A decisão final, aguardada para a próxima semana, promete impactar a economia, o meio ambiente e, principalmente, a vida útil dos veículos dos brasileiros.

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