PATRIMÔNIO HISTÓRICO RECUPERADO
Arquivo Nacional e Caixa Econômica Federal articulam digitalização de contas de escravizados
Tratativas buscam preservar 158 cadernetas de poupança do século 19, revelando histórias de luta e pecúlio de pessoas escravizadas.
O Arquivo Nacional negocia com a Caixa Econômica Federal a assinatura de um Acordo de Cooperação Técnica para a digitalização de 158 cadernetas de poupança pertencentes a pessoas escravizadas no século 19, conforme anunciado em 13/07/2026. A iniciativa visa salvaguardar um acervo documental único, que detalha a trajetória econômica de indivíduos que, sob o regime escravista, conseguiram acumular pecúlio.
A decisão de buscar a preservação digital desses documentos partiu da necessidade de responder a questionamentos sobre o destino dos valores contidos nessas contas. A medida é fruto de um inquérito civil instaurado pelo Ministério Público Federal (MPF), que investiga a destinação desse patrimônio histórico após receber denúncias de organizações do movimento negro.
Os registros guardam mais do que números: contêm nomes, profissões e endereços de homens e mulheres conhecidos como escravos de ganho. Entre as histórias preservadas, está a de Lydia, uma lavadeira de 27 anos identificada como propriedade de Maria Carlota Fortuna. Para muitos, a poupança representava a esperança de comprar a própria alforria, ainda que a realidade fosse marcada pela opressão. A historiadora Keila Grinberg ressalta que o acervo ilumina um aspecto pouco explorado da história do sistema financeiro no país.
A diretora-geral do Arquivo Nacional, Monica Lima, detalhou que as tratativas ocorrem em etapas, incluindo visitas técnicas para avaliar o estado de conservação dos livros contábeis. O procurador da República Júlio Araújo reforçou que a investigação busca transparência sobre o destino final dos depósitos, muitos dos quais permaneceram sem movimentação até 1931.
Até o momento, o acordo não possui uma data final definida para assinatura, pois depende da conclusão das vistorias técnicas no acervo da Caixa Econômica Federal. A instituição, em nota, reconheceu a importância histórica dos documentos e afirmou estar comprometida com a preservação e a ampliação do conhecimento público sobre o tema.
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