ACORDO COMERCIAL EM FOCO
Apex-Brasil mantém projeção de US$ 1 bilhão em comércio com União Europeia apesar de entraves
Presidente da Apex-Brasil, Laudemir Müller, detalha otimismo com acordo Mercosul-UE e aponta novas rotas para exportação brasileira, incluindo Ásia e África.
Apesar das recentes divergências envolvendo o acordo Mercosul-União Europeia, como exigências sanitárias para carnes, cotas agrícolas e mecanismos de proteção ao mercado europeu, a Apex-Brasil mantém a projeção de US$ 1 bilhão em comércio adicional entre os blocos. A decisão de seguir com a estimativa foi reafirmada pelo presidente da agência, Laudemir Müller, nesta domingo, 31/05/2026, em entrevista à CNN. A projeção, considerada modesta pelo executivo, ignora potenciais ganhos em 543 setores, focando em um crescimento conservador que pode beneficiar a dignidade do comércio brasileiro e fortalecer relações estratégicas.
Em entrevista à CNN, Müller afirmou que o potencial do acordo vai além das cotas para produtos agropecuários tradicionais e pode abrir espaço para setores com baixa participação no mercado europeu, como o de frutas. Segundo ele, a estimativa é conservadora e o tratado também deve impulsionar investimentos no Brasil e fortalecer as relações comerciais com parceiros estratégicos, como a China. A compreensão da agricultura brasileira, muitas vezes incompreendida pelos europeus devido a realidades distintas, é um ponto crucial para o sucesso.
Müller destacou que, embora existam entraves, como discussões sobre antimicrobianos e cotas agrícolas, os ganhos esperados para o Brasil não serão reduzidos. Ele citou o exemplo da uva de mesa, onde o Brasil detém 1,5% do mercado europeu de importação de US$ 5 bilhões, com potencial de crescimento expressivo. "Se chegarmos a 3% de participação, vamos para quase US$ 170 milhões. Se chegarmos a 5%, passaremos de US$ 250 milhões", exemplificou. Ele ressaltou que a Europa importa US$ 3 trilhões por ano de fora do bloco, e o Mercosul importa US$ 340 bilhões, indicando um vasto espaço para crescimento, mesmo com acordos ou preferências comerciais. O acordo cria um espaço novo, tornando a projeção de US$ 1 bilhão adicional uma estimativa "bem modesta".
Sobre a questão das cotas, Müller as vê como parte do processo de entrada gradual, uma forma de administrar a expansão. "Eu não vejo isso como um grande revés. Vejo como parte do processo", explicou. Ele também se mostrou seguro quanto ao potencial do acordo atrair mais investimentos europeus, especialmente em setores que demandam energia, onde o Brasil apresenta vantagens.
O presidente da Apex-Brasil garantiu que o agro brasileiro está habituado a lidar com a complexidade de abrir e fechar mercados, habilitação de plantas e visitas técnicas. A discussão sobre antimicrobianos, embora um assunto não novo, exige condução cuidadosa para preservar a imagem do Brasil e esclarecer os pontos necessários. Ele confirmou que não vislumbra gargalos logísticos para o incremento de comércio com a Europa, pois este não é um mercado novo para o Brasil.
No entanto, a logística ainda representa um desafio em outros mercados, como na China, onde a busca por rotas adequadas e a viabilização da escala para exportação de produtos como a uva de mesa são complexas. Müller apontou a importância da Rota Bioceânica para solucionar esses desafios, citando o investimento chinês no porto de Chancay como um indicativo da busca por rotas mais seguras e baratas para a Ásia. Ele também ressaltou a necessidade de o Brasil romper a mentalidade de olhar apenas para o Atlântico e explorar as conexões com o Pacífico, o que pode revolucionar o comércio a partir de centros como Cuiabá.
A relação bilateral Brasil-China, segundo Müller, vive o melhor momento, apesar de a China poder adotar salvaguardas. Ele destacou a força da relação e a importância atribuída por ambos os lados, exemplificada pela conversa com um governador de Shenzhen sobre estratégia. A guerra comercial entre Estados Unidos e China cria oportunidades, pois os chineses veem o Brasil como um parceiro estável, mas o país não se limita a este mercado, buscando também Japão, Coreia e México.
Além de commodities, o Brasil está expandindo sua atuação com a China no setor de café, incluindo café especial, e no gergelim, com exportações expressivas. A Apex-Brasil promoveu a ida de cooperativas da agricultura familiar à China pela primeira vez, um marco histórico que abriu novas possibilidades para empresas como a AmazonBai, do Amapá, que conseguiu vender sua produção anual. Essa iniciativa reforça o impacto positivo dessas ações na dignidade e no potencial dos produtores.
Müller apontou a Índia e a África como mercados com grande potencial de crescimento nos próximos anos. A Índia, apesar de sua cultura e ritmo distintos, está avançando diretamente para o e-commerce, e o Brasil acompanha de perto 12 grandes investidores indianos. Na África, o crescimento populacional impulsionará a economia, com projeções do FMI indicando a Nigéria como uma das maiores economias do mundo em poucas décadas. Essas novas fronteiras representam um avanço significativo para o comércio brasileiro.
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