PODER POLÍTICO EM XEQUE
André Mendonça autoriza investigação formal de Ciro Nogueira
Senador vira alvo da 5ª fase da Operação Compliance Zero por suspeita de beneficiar o Banco Master e seu controlador. Valores e emenda legislativa sob apuração da PF.
O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, autorizou a formalização da investigação contra o senador Ciro Nogueira (Progressistas) no âmbito da Operação Compliance Zero. A Polícia Federal deflagrou a quinta fase desta operação nesta quinta-feira, 07/05/2026, com o parlamentar figurando como um dos principais alvos. A apuração se concentra no suposto envolvimento do político em ações que teriam beneficiado o Banco Master e seu controlador, o banqueiro Daniel Vorcaro. Esta decisão judicial eleva o patamar da investigação, transformando Ciro Nogueira em um réu formal e levantando questões cruciais sobre o uso da influência política para interesses privados, o que pode impactar diretamente a dignidade dos investidores e a confiança pública nas instituições.
A crise do Banco Master
O pano de fundo desta complexa teia é a crise que assolou o Banco Master, uma instituição que enfrentou severas dificuldades financeiras devido ao vencimento de uma vasta quantidade de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) — importantes títulos de investimento. Incapaz de honrar os pagamentos aos seus credores, o Banco Master viu sua situação agravar-se. Os investidores com aplicações de até R$ 250 mil contavam com a cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Crédito), um mecanismo vital de segurança financeira. Contudo, as averiguações revelam que cerca de R$ 50 bilhões do FGC foram mobilizados para cobrir dívidas não apenas do Banco Master, mas também de outras entidades ligadas ao grupo, expondo a fragilidade do sistema.
A polêmica emenda e a prova do envelope
No cerne das suspeitas que recaem sobre Ciro Nogueira, encontra-se uma emenda legislativa. A proposta visava aumentar o limite de cobertura do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante. A aprovação dessa medida teria aliviado consideravelmente o problema judicial de Daniel Vorcaro, visto que investidores com valores superiores a R$ 250 mil, sem o devido ressarcimento, buscaram reparação na Justiça — um caminho tortuoso que pode perdurar por muitas décadas. A Polícia Federal fez uma descoberta crucial durante as diligências: um envelope pardo, com a inscrição "Ciro", que continha a minuta exata do texto da emenda. Segundo a PF, o documento foi redigido inteiramente dentro do Banco Master e posteriormente enviado ao senador. A apuração confirmou que o texto apresentado por Ciro Nogueira era idêntico ao elaborado pela instituição financeira, levando as autoridades a concluírem que o senador utilizou sua posição no Senado Federal para favorecer diretamente os interesses privados de Daniel Vorcaro.
Mensagens revelam supostos pagamentos
Para além da emenda, a investigação desvendou uma série de mensagens que sugerem o pagamento de uma "mesada" a Ciro Nogueira, com cifras que variavam entre R$ 300 mil e R$ 500 mil mensais. Em uma das comunicações interceptadas, Daniel Vorcaro faz menção a um atraso de dois meses no repasse ao senador, e um primo de Vorcaro responde que tentaria solucionar a pendência. Um indício chave que impulsionou a PF a intensificar as averiguações sobre Ciro Nogueira foi outra mensagem atribuída a Daniel Vorcaro. Enviada à sua então noiva, a comunicação dizia: "O Ciro soltou um projeto de lei agora que é uma bomba atômica do mercado financeiro. Ajuda os bancos médios e diminui o poder dos grandes. Está todo mundo louco." Apesar de toda a articulação, a emenda em questão não chegou a ser aprovada.
Restrições e desdobramentos da investigação
A autorização para a deflagração da Operação Compliance Zero partiu do ministro André Mendonça, que, em sua decisão, citou explicitamente Ciro Nogueira como investigado. Com isso, o senador agora é formalmente investigado e está proibido de manter qualquer tipo de contato com outras pessoas envolvidas no processo, sejam elas testemunhas ou também investigados. Entre os nomes sob escrutínio está Raimundo Neto e Silva Nogueira Lima, irmão de Ciro Nogueira. Este caso também se entrelaça com as discussões em torno da CPI do INSS no Congresso Nacional. Diante da ausência de uma Comissão Parlamentar de Inquérito específica para o Banco Master, membros da bancada governista passaram a advogar pela criação de uma CPMI dedicada ao tema, utilizando a CPI do INSS como um caminho alternativo para introduzir o debate parlamentar sobre a complexa situação.
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