RISCO DE CREDIBILIDADE
Analistas alertam que “puxadinho” do Copom pode abalar credibilidade do Banco Central
Mudança no horizonte de projeção de inflação para justificar corte na Selic gera debate entre economistas. Banco Central busca equilibrar metas com atividade econômica, mas comunicação se torna crucial.
Uma alteração no comunicado divulgado pelo Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), na quarta-feira, 17 de junho de 2026, está gerando controvérsia entre agentes econômicos. A decisão, motivada pela necessidade de justificar o corte de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros, a Selic, agora fixada em 14,25% ao ano, envolveu a variação do “horizonte relevante” de projeção da inflação, um movimento que analistas apontam poder abalar a credibilidade da instituição.
O documento emitido ao final de cada reunião do Copom detalha a análise do cenário econômico e os argumentos que fundamentam a definição da Selic. Nesta ocasião, o Copom mencionou que, considerando o horizonte atual — o quarto trimestre de 2027 —, a inflação estaria fora da meta. No entanto, ao projetar para o primeiro trimestre de 2028, horizonte relevante para a próxima reunião em agosto, a inflação retornaria ao centro da meta, de 3% ao ano.
Credibilidade sob escrutínio
Para uma parcela de especialistas, a menção ao novo horizonte soou como uma manobra para justificar o corte de juros, o que pode prejudicar a imagem do órgão. Yihao Lin, economista da Genial Investimentos, avalia que, embora a estratégia de “rolar” o horizonte relevante por um trimestre à frente legitime o corte da Selic, ela compromete a credibilidade da diretoria do BC e eleva as chances de uma pausa na redução dos juros na próxima reunião.
“O comitê optou por ‘rolar’ o horizonte relevante como forma de obter um cenário em que o corte da Selic seja consistente com uma inflação na meta”, explica Lin. “Esse fato sinaliza que o BC está mais disposto a correr maiores riscos em termos de inflação vis-à-vis a atividade econômica, mesmo em um ambiente que está sendo marcado por uma economia ainda resiliente.”
O ônus da comunicação
André Braz, economista e pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), pondera que a mudança do horizonte não invalida automaticamente a credibilidade do Banco Central, mas intensifica o desafio da comunicação. "O problema não é o BC olhar um horizonte mais longo", afirma Braz. "Política monetária atua com defasagem e, em momentos de choque de oferta, câmbio, petróleo ou clima, faz sentido evitar uma reação excessivamente dura que derrube demais a atividade. O ponto sensível é mudar a referência do horizonte relevante justamente quando a inflação projetada no horizonte anterior ainda está acima da meta."
Braz ressalta que, apesar da redução da Selic para 14,25% ao ano, o Copom reconheceu uma piora no cenário. A projeção do IPCA para 2026 subiu para 5,2%, e a estimativa para o quarto trimestre de 2027 ficou em 3,7%, acima da meta de 3%. "Não é uma perda de credibilidade por si só, mas pode ser percebida como flexibilização da reação do BC se não vier acompanhada de uma explicação muito clara", acrescenta. "A credibilidade depende de o mercado entender que a mudança é técnica, ligada à defasagem da política monetária e à natureza dos choques, e não uma forma de acomodar inflação mais alta. O BC precisará mostrar, na ata (que será divulgada na próxima semana) e nas próximas falas, que continua comprometido com a meta e a extensão do horizonte não significa tolerância permanente com inflação acima de 3%."
Amparo técnico e riscos de percepção
Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, descreve a situação como uma “aritmética desfavorável” para o Copom. Segundo ele, para atingir a meta de inflação no horizonte vigente (quarto trimestre de 2027), seria necessário um aperto monetário significativo. Contudo, tal medida forçaria a inflação abaixo da meta no trimestre seguinte, exigindo uma reversão rápida da política monetária.
A solução encontrada foi adiar o horizonte relevante para março de 2028, permitindo uma convergência com trajetória menos agressiva e compatível com a suavização da atividade. Kayo afirma que a decisão tem amparo técnico no regime de metas, mas introduz um risco à credibilidade. "Num momento em que a inflação já superou o teto da meta e as expectativas seguem desancoradas, o movimento pode ser lido como sinal de que o BC está priorizando o crescimento", alerta.
O economista prevê que o mercado se dividirá, com uma parcela dos participantes questionando as prioridades do Comitê. A ala mais restritiva (“hawkish”) verá na mudança de horizonte uma justificativa para cortar juros em um cenário ainda adverso à inflação. Já a ala mais branda (“dovish”) pode considerar o dilema razoável, confiando que o período prolongado de juros elevados surtirá efeito. A ata e o Relatório de Política Monetária serão cruciais para definir a percepção do mercado e o impacto na credibilidade do Banco Central diante dessa "sinuca de bico".
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