VIOLÊNCIA DE GÊNERO
Agressões ao rosto de mulheres visam apagar identidade, alertam pesquisadores
Ataques que desfiguram o rosto de vítimas buscam destruir a identidade e dignidade feminina. Especialistas e relatos mostram a gravidade e a busca por amparo.
Em 2026, quando a Lei Maria da Penha completa duas décadas de existência, especialistas alertam para um padrão alarmante na violência contra a mulher: os ataques direcionados ao rosto das vítimas. Essa forma específica de agressão revela uma intenção que transcende o dano físico, buscando marcar e aniquilar a identidade feminina por meio de uma brutalidade desproporcional.
Um caso recente e emblemático é o da estudante Alana Anísio Rosa, de 20 anos, moradora de São Gonçalo, no Rio de Janeiro. Apesar de não ter qualquer tipo de vínculo com o agressor, ela sofreu uma tentativa de homicídio dentro de sua própria residência. "Eu sempre tive medo de acabar em um relacionamento abusivo. Só que você também nunca espera que vai ser sem ter nenhum relacionamento. Que dentro da sua casa, onde você tá segura, uma pessoa que você não tem nenhum vínculo, que não é seu amigo, que não é seu colega, vai invadir e tentar te matar", desabafa Alana.
No final de 2025, Alana passou a receber presentes anônimos, como flores e doces, com mensagens de cunho romântico. O remetente era Luiz Felipe Sampaio, 22 anos, frequentador da mesma academia que a jovem, embora nunca tivessem interagido. Após uma recusa polida enviada por mensagem, com o apoio do pai, Sampaio invadiu a residência da estudante armado com uma faca e a atacou repetidamente. A agressão só foi interrompida pela chegada da mãe de Alana. A jovem sobreviveu após um período em coma induzido. O agressor foi preso em flagrante e a defesa da vítima busca a tipificação do caso como tentativa de feminicídio, enquanto a defesa dele pleiteia a desqualificação para lesão corporal.
Subnotificação e marcas permanentes
A promotora de Justiça Fabíola Sucasas destaca que estudos em odontologia e medicina, baseados em exames de corpo de delito, indicam que entre 70% e 90% das agressões físicas contra mulheres atingem a face. Essa violência de gênero, historicamente subnotificada, cria dificuldades no mapeamento por órgãos de segurança. Uma pesquisa com mais de 3.000 usuárias do Sistema Único de Saúde (SUS) na Grande São Paulo revelou que, embora 76% tenham relatado algum tipo de violência (psicológica, física ou sexual), apenas 3,8% tiveram o episódio formalizado em prontuários médicos, demonstrando a lacuna entre os casos atendidos e os que chegam à Justiça.
A professora de psicologia Valeska Zanello, da Universidade de Brasília, explica a "pedagogia virilista" por trás desses ataques: "O homem quando atinge a face, ele tá não só dando uma lição nessa mulher, mas está tornando ela 'estragada'. Ou seja, você não é minha, mas ninguém mais vai te desejar". As marcas visíveis no rosto impõem às vítimas uma lembrança constante do trauma. Em Santos, a médica Samira Khouri, 27 anos, foi vítima de agressões brutais no rosto desferidas pelo ex-namorado, Pedro Camilo Garcia Castro, 24 anos, durante uma viagem a São Paulo. Após uma discussão, ele desferiu socos por seis minutos, mesmo com a vítima inconsciente, quebrando a própria mão pela intensidade dos golpes. "Esse processo, eu queria falar que ele fica mais fácil, mas ele não fica. Porque cada dia é mais difícil. Porque a gente dorme com a esperança de que no dia seguinte a gente vá acordar e não vai mais ter o que tem. Só que todo dia é a mesma coisa, então todo dia eu olho no espelho, eu sorrio e falo assim: essa não sou eu. Porque está muito torto. Não está normal", relata Samira. O agressor aguarda julgamento preso.
Apoio e alterações legislativas
Especialistas classificam esses ataques como "overkill", o uso de força excessiva e desproporcional que vai "mais do que matar", deixando marcas perpétuas. Organizações civis oferecem assistência especializada, cirurgias reparadoras e apoio psicossocial. Em São Paulo, o Instituto Um Novo Olhar, fundado pela médica Carla Góes, coordena uma rede de voluntários para tratamentos de reconstrução facial e outros suportes. A iniciativa tem parceria com o Hospital das Clínicas de São Paulo, que abriga o primeiro ambulatório de psiquiatria para mulheres e seus filhos. O serviço atendeu Cristiane Gomes, vítima de um tiro no rosto pelo ex-marido há oito anos. Após a recuperação, ela usa as redes sociais para conscientizar outras mulheres. O ex-marido de Christiane cumpre pena por tentativa de feminicídio.
No âmbito legislativo, a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei que endurece penas para agressores que causem lesões, mutilações ou traumas no rosto, pescoço ou partes íntimas de mulheres. A proposta agora aguarda análise na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) antes de avançar para votação no plenário e tramitação no Senado Federal.
Perspectivas internacionais
A gravidade dos ataques ao rosto e com substâncias químicas motiva legislações e projetos de apoio globalmente. Na Colômbia, o ataque com ácido contra Natalia Ponce de Leon impulsionou uma lei específica. Na Inglaterra, a modelo Katie Piper, vítima de um ataque com ácido, fundou uma instituição para ajudar sobreviventes. Na Índia, um estabelecimento comercial em Agra contrata exclusivamente mulheres que sofreram ataques com ácido, promovendo inclusão social.
De volta aos estudos, Alana Anísio Rosa afirma que seu foco é o futuro profissional: "Eu continuo sendo a mesma pessoa com a mesma identidade. Tenho os mesmos objetivos. Só que meu rosto, por enquanto, enquanto não melhora, vai ser desse jeito. E mesmo se não melhorar cem por cento, eu estou confortável com quem eu sou. Eu sei que eu estou viva. Eu sei que eu não posso me deixar abater, assim, me abalar porque eu sei que seria o objetivo dele. O objetivo de que eu fosse invisibilizada. É o que eu não quero. Eu quero continuar sendo quem eu sempre fui. E, assim, confortável com quem eu sou", conclui a estudante.
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