QUEBRA DE CONFIANÇA
Agente da PF se oferecia para grupo de Vorcaro em troca de dinheiro, aponta investigação
Policial Anderson Wander Lima é suspeito de repassar dados sigilosos à 'A Turma', núcleo ligado a Daniel Vorcaro, revelam investigações da Polícia Federal autorizadas pelo magistrado Daniel Mendonça. Operação desta quinta-feira, 14 de maio de 2026, mira o esquema.
A Polícia Federal revelou, em investigações que culminaram em uma operação nesta quinta-feira, 14 de maio de 2026, um esquema alarmante envolvendo um de seus agentes. Segundo a decisão do magistrado Daniel Mendonça, o policial Anderson Wander da Silva Lima teria se oferecido para prestar serviços ilegais e repassar informações sigilosas ao grupo criminoso "A Turma", ligado ao banqueiro Daniel Vorcaro. Essa conduta, movida por interesses financeiros, compromete gravemente a integridade da instituição e mina a confiança pública na justiça, expondo a sociedade a riscos ao fragilizar o combate ao crime organizado.
"A Turma", apontada pelas investigações da PF, era o núcleo responsável por realizar ameaças violentas a adversários de Daniel Vorcaro. As revelações sobre a participação do agente Anderson Wander Lima, lotado na Delegacia Especial de Polícia Federal no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro, surgiram em trocas de mensagens com Marilson Roseno da Silva, um policial federal aposentado e integrante do grupo.

Henrique Vorcaro, pai de Daniel, é levado para IML após ser preso pela PF nesta quinta-feira, 14 de maio de 2026.
A investigação da Polícia Federal detalha que Anderson Wander Lima vinha atuando em parceria com Marilson desde agosto de 2023 de forma "estável", fornecendo constantemente informações confidenciais que lhe eram solicitadas. A decisão de Mendonça sublinha a gravidade da situação: "Os elementos até aqui coligidos revelam, em juízo de delibação, atuação de especial gravidade de Anderson Wander da Silva Lima. [...] Nessa condição, detinha acesso privilegiado, atual e funcional aos bancos de dados oficiais, sendo precisamente por isso constantemente acionado por Marilson e, em tese, financeiramente retribuído."
Após um primeiro serviço prestado no início de agosto de 2023, o agente da PF demonstrou proatividade em setembro do mesmo ano, enviando um áudio a Marilson expressando o desejo de realizar mais "trabalhinhos". No dia 20 de setembro de 2023, Anderson Wander afirmou, em síntese, que estava "fedendo", necessitava de alguma "coisinha boa" e que gostaria de fazer uns "trabalhinhos".
Marilson, por sua vez, respondeu que uma nova demanda surgiria no mês seguinte, possivelmente no Rio de Janeiro, e que precisaria do apoio "de vocês aí", confirmando a expectativa de continuidade dos serviços ilegais do agente da PF. "Esse trecho, em juízo sumário, revela que Anderson não era mero executor de uma consulta ou outra, mas alguém integrado a circuito de demandas futuras e com expectativa de remuneração, prestando-se a atuar reiteradamente em favor da organização", concluiu Mendonça.
Em outubro de 2023, Marilson novamente contatou Anderson para verificar se uma pessoa ainda estaria no Chile. A decisão judicial não especifica a identidade da pessoa nem confirma a informação, apenas registra que a solicitação foi atendida, demonstrando a prontidão do agente em ceder à rede criminosa.
Agente foi repreendido por membro da 'Turma'
Em fevereiro de 2024, Marilson solicitou que o agente da PF obtivesse informações de um inquérito policial sobre um crime financeiro que envolvia Daniel Vorcaro. Anderson, sem hesitar, mobilizou "outros três colegas" da Polícia Federal e conseguiu acesso ao inquérito. No entanto, ao encaminhar o documento na íntegra para Marilson, o agente da PF foi repreendido, pois seu "cliente" desejava apenas informações "sucintas" do processo, evidenciando a intenção de manipulação da informação.
Uma semana depois, Marilson procurou Anderson Wander novamente em busca de dados sobre uma intimação recebida por Henrique Vorcaro, pai do banqueiro Daniel, que foi preso durante a Operação Compliance Zero em 14 de maio de 2026. "Esses fatos revelam, em tese, que Anderson era acionado não apenas para consultas cadastrais simples, mas também para sondar investigações policiais sigilosas de interesse direto do núcleo Vorcaro, inclusive mobilizando sua rede de confiança dentro da corporação", pontuou Mendonça.
A decisão judicial de Daniel Mendonça, que embasa a operação atual, ainda cabe recurso, indicando que as investigações prosseguem para apurar a extensão do envolvimento do agente e de outros membros da corporação no esquema criminoso.
Operação Compliance Zero: Polícia Federal cumpre mandados de prisão e busca e apreensão em MG, SP e RJ nesta quinta-feira, 14 de maio de 2026. — Foto: TV Globo
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