ALERTA JUDICIAL
Advogados presos vazavam dados sigilosos do MP para o PCC, revelam áudios
Conversas interceptadas pela Operação Backdoor expõem suposta colaboração de defensores com a facção criminosa. Informações de processos e operações policiais eram repassadas para que membros do PCC pudessem fugir.
Conversas interceptadas pelo Ministério Público revelam como advogados presos na terça-feira, 23 de abril de 2024, no interior de São Paulo, teriam vazado informações sigilosas para alertar integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) sobre operações policiais. A dupla, alvo da Operação Backdoor, supostamente utilizava a senha de uma promotora de Justiça para acessar dados confidenciais de processos judiciais.
A Operação Backdoor, deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MP e pela Polícia Militar, prendeu em Jaboticabal (SP) e Taquaritinga (SP) dois advogados suspeitos de vazar dados judiciais a integrantes do PCC. Segundo as investigações, com essas informações, parte dos investigados da organização criminosa conseguiu fugir do cumprimento de mandados autorizados pela Justiça. A força-tarefa apurou ainda que os advogados teriam utilizado a senha de uma promotora de Justiça para acessar processos sigilosos contra criminosos investigados por homicídios. As investigações indicam que, antes de acessarem os processos, os advogados foram avisados por uma ex-estagiária do Ministério Público, que também é advogada e alvo da operação. Ela é sobrinha de um integrante do PCC suspeito de participação em um "tribunal do crime".
De acordo com o Ministério Público, as conversas envolvem os advogados Guilherme Gilbertoni Anselmo e Jonatas Alves Moraes, presos temporariamente por cinco dias. "Já sei o que tá acontecendo, já sei qual que é a operação, já sei quem é que tá envolvido", teria afirmado Anselmo em uma das conversas interceptadas com uma pessoa ligada ao PCC.
O que dizem os investigados
A defesa de Guilherme Anselmo informou que não se manifestaria sobre o assunto. Em nota, os advogados Danielle Riegermann Ramos Damião e Olavo Hamilton Ayres Freire de Andrade comunicaram que Jonatas Alves Moraes nega integralmente a autoria e qualquer envolvimento nos fatos investigados. "Todas as circunstâncias serão devidamente apuradas pelas autoridades competentes, com observância do devido processo legal, do contraditório e da ampla defesa. Neste momento, não há qualquer nada definitivo que permita atribuir responsabilidade a Jonatas, razão pela qual a defesa confia que a apuração técnica e imparcial dos fatos demonstrará a verdade."

O que os diálogos revelam
Os diálogos interceptados e analisados pelo MP revelam como os advogados utilizavam informações sigilosas obtidas ilegalmente para alertar e orientar integrantes do PCC sobre operações policiais e medidas judiciais. Uma dessas ações, segundo o Gaeco, ocorreu em 19 de abril de 2024, quando Guilherme Anselmo teria antecipado a uma pessoa ligada ao PCC, e suspeita de participar de tribunais do crime, que uma operação policial estava prestes a ser realizada contra a organização criminosa. A conversa ocorreu apenas dois dias após os dados desse processo serem inseridos no sistema do Tribunal de Justiça de São Paulo, quando a Promotoria de Justiça ainda precisaria se manifestar sobre pedidos de prisão contra integrantes do PCC. "Já sei o que tá acontecendo, já sei qual que é a operação, já sei quem é que tá envolvido. (...) A gente tem que esperar um pouquinho, senão, na verdade, a gente joga nosso cliente na boca dos leões", dizia o advogado.
Em 23 de abril de 2024, outra conversa mostra que Anselmo confirmou a um colega advogado ter tido acesso a uma representação policial contra outro homem investigado por participação em um "tribunal do crime" do PCC. "Essa semana aqui é pra cantar um mandado de prisão pra ele. (...) Eu tô te falando porque eu já vi a representação. (...) Tá engatilhado aí, se bobear sai até hoje isso daí."
Em 3 de julho de 2024, segundo o MP, Guilherme Anselmo teria falado sobre seus serviços de advocacia a um suspeito de atuar com tribunais do crime do PCC, apontado pela Operação Backdoor como um dos principais beneficiários do vazamento de dados. "Eu não tô aqui pra te vender fumaça nem nada. E a proposta que eu vou te fazer é neste processo. Os outros, a gente não tem nem noção ainda do que possa vir. De repente nem venha nada. Então vamos focar primeiramente neste processo. Tá, uma coisa eu te garanto. Eu não advogo como esses outros advogados que existem."

Em abril de 2025, esse mesmo investigado teria prometido enviar dinheiro para pagar uma hospedagem para Anselmo. "Fica em paz que eu vou te mandar sim um dinheiro pra você ficar lá, hospedar lá, ficar em paz lá, tranquilão lá e voltar, tá bom? (...) Então fica em paz que eu vou te pagar você aí, fica de boa. (...) Eu não tenho como assinar contrato não, até porque não tem nem como nem falar que foi eu que te paguei, porque vou provar que eu tirei dinheiro da onde?"
Os diálogos obtidos pelos investigadores revelam ainda a suspeita de que Guilherme Anselmo e Jonatas Moraes atuavam de maneira coordenada para monitorar o sistema judicial com credenciais subtraídas de uma promotora de Justiça. Em uma conversa de abril de 2024, Anselmo pediu a Moraes que o atualizasse sobre as decisões de um juiz. "Tão logo o colega tiver conhecimento da decisão do magistrado peço a fineza só de me comunicar."
A prisão de dois advogados nesta terça-feira, 23 de abril de 2024, na Operação Backdoor em Taquaritinga (SP) e Jaboticabal (SP) visa combater a suposta conivência entre a advocacia e o crime organizado, com o objetivo de garantir a integridade do sistema de justiça e a dignidade dos cidadãos.
Gostou desta notícia?
Entre no nosso grupo do WhatsApp!
Receba as principais notícias em primeira mão, direto no seu celular. É grátis!
📲 Quero entrar no grupo
Comentários (0)
Deixe seu comentário