TRÂNSITO MARÍTIMO EM RISCO

Adiamento de negociações entre EUA e Irã adia esperanças de retomada de tráfego no estreito de Hormuz

Vista aérea do estreito de Hormuz com navios mercantes.
O estreito de Hormuz é uma rota marítima vital para o transporte global de petróleo.

Desistência do vice-presidente dos EUA, J.D. Vance, de viajar à Suíça para negociações de paz com o Irã gera incerteza sobre a volta de embarcações por via essencial para 20% da produção global de petróleo e gás. Medidas iranianas buscam mitigar impacto.

Empresas de transporte marítimo viam a sexta-feira, 19 de junho de 2026, como um marco para a possível retomada do tráfego no estreito de Hormuz. Contudo, a decisão do vice-presidente dos EUA, J.D. Vance, de não comparecer às negociações de paz com o Irã, que ocorreriam na Suíça, lançou uma nova sombra de dúvida sobre o retorno das embarcações. Essa via é crucial, responsável pelo escoamento de 20% da produção mundial de petróleo e gás.

Um porta-voz da Casa Branca comunicou o adiamento das discussões, previstas para o resort suíço de Burgenstock, afirmando que "a logística dessas negociações nunca foi simples nem previsível". A Suíça confirmou o reagendamento, enquanto o Irã já havia sinalizado que só participaria após os Estados Unidos demonstrarem avanços na implementação de um acordo provisório, assinado na quarta-feira, 17 de junho de 2026.

Em um movimento para amenizar os efeitos do impasse, a Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico, órgão iraniano responsável pela gestão de Hormuz, anunciou, nesta sexta-feira, a isenção de taxas para o uso do estreito durante o período de negociação de 60 dias. A medida visa facilitar o fluxo de embarcações enquanto as tratativas diplomáticas se arrastam.

Navios que desejarem transitar pelo estreito, enquanto o acordo provisório estiver em vigor, precisarão apresentar seus pedidos de passagem com pelo menos 48 horas de antecedência. Essa exigência visa garantir a coordenação de rotas e horários, especialmente em razão das áreas identificadas com a presença de minas, assegurando, assim, a navegação segura.

As empresas de dados de navegação Kpler e AXSMarine registraram a passagem de 25 navios comerciais pelo estreito de Hormuz na quinta-feira, 18 de junho de 2026. Este número representa o maior volume de embarcações desde 18 de abril e é cinco vezes superior à média diária observada nos primeiros dez dias de junho, segundo a AXSMarine.

Apesar do aumento pontual, o volume ainda está consideravelmente abaixo da média de 145 navios que cruzavam Hormuz diariamente antes do início da guerra, em 28 de fevereiro. A Organização Marítima Internacional (OMI) estima que aproximadamente 500 navios-tanque permanecem bloqueados no Golfo Pérsico, aguardando a liberação de Hormuz. Gigantes do setor, como Mitsui OSK Lines e Hapag-Lloyd, declararam que só retomarão operações quando condições de segurança adequadas forem estabelecidas, garantindo a integridade de suas frotas.

Jotaro Tamura, presidente-executivo da Mitsui OSK Lines, destacou ao jornal Financial Times que o acordo necessário "precisa ser concreto e traduzido em situações reais no estreito de Hormuz, para que as empresas de navegação possam se sentir confortáveis para atravessar". A confiança dos operadores logísticos é essencial para a normalização do tráfego.

O adiamento das negociações impactou os mercados globais de energia. Nesta sexta-feira, o preço do barril Brent, referência internacional, oscilou. Iniciou o dia em queda de 1,29%, cotado a US$ 78,82 na quinta-feira (21h, horário de Brasília), mas reverteu a tendência, atingindo US$ 80,70 (alta de 1,06%) por volta das 3h30 desta sexta, e estabilizando-se em US$ 79,92 (valorização de 0,09%) às 9h10.

Nos EUA, o petróleo WTI (West Texas Intermediate) era negociado a US$ 76,15, registrando uma queda de 0,57% por volta das 9h10. A instabilidade nos preços reflete a cautela dos mercados diante da incerteza geopolítica.

Além dos riscos de segurança inerentes à área, com a presença de minas submersas, as embarcações que aguardam liberação podem enfrentar um novo desafio: o acúmulo de cracas e outros organismos marinhos nos cascos. Conforme reportado pelo New York Times, essa bioincrustação pode reduzir significativamente a velocidade dos navios e, em casos extremos, inviabilizar sua navegação, demandando soluções logísticas e técnicas adicionais.

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