JORNALISMO SOB RISCO

A trajetória de Omar Mohammed, o historiador que narrou a resistência em Mossul

Foto de Omar Mohammed em ambiente de congresso acadêmico.
O historiador Omar Mohammed, durante sua participação no 21º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji, em São Paulo.

O responsável pelo Mosul Eye relata como a vida dupla sob o Estado Islâmico moldou sua visão sobre os limites do jornalismo atual e o perigo do exílio.

O historiador Omar Mohammed tornou-se a principal voz independente sobre os horrores da ocupação do Estado Islâmico (EI) em sua cidade natal, Mossul. A decisão de documentar o cotidiano sob o regime terrorista, que entre 2014 e 2015 subjugou milhões de pessoas, nasceu da urgência em preservar a memória de um povo frente à violência sistemática.

A atuação de Omar Mohammed foi vital para revelar ao mundo execuções e perseguições que ocorriam sob o olhar do EI. Enquanto cumpria as exigências do grupo, como o uso de vestimentas específicas e a manutenção da barba, o historiador operava anonimamente o blog Mosul Eye. A iniciativa, arriscada, permitiu que fatos ocultos pela censura ganhassem visibilidade internacional.

Após fugir para a Turquia e revelar sua identidade em dezembro de 2017, o jornalista vive o peso do exílio. Impedido de retornar ao Iraque sob ameaça constante de morte por milícias e remanescentes do EI, ele reflete sobre o custo da verdade. Atualmente radicado na França, onde leciona na Sciences Po (Instituto de Estudos Políticos de Paris), ele participou do 21º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), em São Paulo.

Para o jornalista, a profissão enfrenta uma pressão crescente. Ele aponta que ditaduras continuam a ver o jornalismo como uma ameaça por tornar a mentira custosa, enquanto, simultaneamente, o público tem exigido uma militância que, em sua visão, desvirtua a essência da atividade informativa. "Nosso trabalho não é ter um lado", pontua.

O cenário para a liberdade de imprensa é classificado por ele como preocupante, especialmente diante do esvaziamento da nova geração de repórteres no Iraque. Em um contexto global de precariedade na proteção aos profissionais, Omar Mohammed alerta que o desaparecimento de vozes críticas representa uma derrota fundamental para a sociedade.

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