VIDAS APÓS TRAGÉDIA
A reconstrução de Francisco após o trauma de um feminicídio
Jovem busca novos objetivos três anos após perder a mãe, evidenciando o impacto invisível da violência doméstica sobre os filhos.
Francisco* busca construir uma trajetória além da marca deixada pelo feminicídio de sua mãe, ocorrido em agosto de 2023, em São Paulo. Aos 19 anos, o jovem, que presenciou o crime aos 16, transita entre a superação do trauma e a redescoberta de sua própria identidade, longe do papel de vítima que a sociedade frequentemente lhe impõe. O caso de Francisco integra uma estatística silenciosa no Brasil. Somente em 2025, o Monitor de Feminicídios no Brasil, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), apontou que pelo menos 1.653 crianças e adolescentes tornaram-se órfãos de feminicídio. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública indica que, no mesmo período, 1.571 mulheres foram assassinadas no país, com São Paulo liderando os registros. Ao completar 20 anos nesta sexta-feira (7), a Lei Maria da Penha revela que seus efeitos protetivos e assistenciais são cruciais, mas ainda insuficientes para blindar a estrutura familiar. O impacto do crime reverbera na vida de filhos como Francisco, que, após o assassinato, enfrentou um processo forçado de amadurecimento, mudanças de cidade e a reconstrução de sua rotina longe da casa que um dia considerou perfeita. Para Francisco, o caminho da cura passou por diversos pilares: a fé religiosa, a prática de atividades físicas e o suporte técnico do Centro de Referência e Apoio à Vítima (Cravi). O atendimento psicológico oferecido pelo Estado foi fundamental para que ele pudesse ressignificar a dor e estruturar metas concretas para o futuro. Hoje, o jovem trabalha em uma concessionária de automóveis e planeja cursar relações internacionais. Mais do que sonhar, ele prefere falar em objetivos. Longe da tragédia, ele tenta reencontrar a normalidade de uma vida que teve de ser reinventada após o momento em que, segundo suas próprias palavras, tudo deixou de existir.
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