TECNOAFETIVIDADE E SOLIDÃO

A ascensão dos namorados de IA e os riscos da economia da intimidade

Representação digital de um relacionamento entre humano e IA.
O crescimento de relacionamentos com parceiros criados por IA levanta debates sobre saúde mental e ética. Foto: Getty Images via BBC.

A proibição de parceiros digitais na China reacende o debate sobre o uso de algoritmos para preencher vazios emocionais e o modelo de negócio das big techs.

A China implementou, em 20/07/2026, uma regulamentação rigorosa que proíbe o funcionamento de "namorados virtuais" baseados em IA. A decisão foi tomada pelas autoridades locais com o objetivo explícito de combater a crescente dependência emocional e o vício digital entre a população, forçando gigantes como ByteDance e Alibaba a suspenderem suas funções de companhia afetiva.

A medida expõe o impacto profundo da tecnologia na dignidade humana. Enquanto o mercado chinês de companhias virtuais crescia mais de 80% ao ano, movimentando R$ 3 bilhões em 2024, milhares de usuários enfrentam agora a perda repentina daquilo que descrevem como seus "pilares espirituais". Essa desconexão forçada evidencia uma crise de saúde pública: a Organização Mundial da Saúde já classificou a solidão como uma ameaça global, que atinge uma em cada seis pessoas no mundo.

O fenômeno não é exclusividade do Oriente. Segundo um estudo da Common Sense Media, cerca de 75% dos adolescentes americanos já experimentaram o uso de companheiros digitais para suprir necessidades de afeto. Em entrevista ao podcast O Assunto, apresentado por Natuza Nery, a pesquisadora Laura Hauser discute o conceito de "tecnoafetividade" e a chamada "quarta ferida narcísica".

Hauser alerta para a perigosa "economia da intimidade", um modelo de negócio em que empresas utilizam o vínculo emocional entre humanos e máquinas como uma estratégia de retenção. Ao transformar sentimentos em métricas, a indústria mantém os usuários conectados por períodos prolongados, levantando dilemas éticos sobre a manipulação da vulnerabilidade humana. A psicanalista Carol Tilkian também contribui para o debate, analisando como o solucionismo tecnológico tenta, por vezes de forma artificial, substituir a complexidade das relações reais.

Produzido pela equipe composta por Luiz Felipe Silva, Sarah Resende, Carlos Catelan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti, Stéphanie Nascimento e Guilherme Gama, o programa O Assunto busca entender as fronteiras entre o avanço da IA e a preservação da saúde mental na era digital.

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