DESENVOLVIMENTO INFANTIL SAUDÁVEL

Tédio nas férias pode estimular o desenvolvimento infantil; entenda

Criança distraída com telas versus criança brincando ao ar livre
Exposição constante a telas e estímulos digitais pode afetar atenção, memória e outras funções cognitivas em crianças e adolescentes • Freepik

Especialistas apontam que o excesso de programação e o uso de telas prejudicam a criatividade. O ócio surge como uma ferramenta essencial para a autonomia.

O tédio durante o período de férias escolares pode atuar como um estímulo fundamental para a criatividade, a autonomia e a capacidade de concentração das crianças. A estratégia foi recomendada por especialistas em educação como uma alternativa ao preenchimento exaustivo da agenda infantil e ao uso excessivo de dispositivos eletrônicos.

O impacto dessa escolha reflete diretamente na formação cognitiva dos jovens. Em um levantamento realizado em 2025 pela Fundação Maria Cecília Souto Vidigal em parceria com o Datafolha, constatou-se que 78% das crianças de até 3 anos já são expostas diariamente a telas, percentual que atinge 94% na faixa de 4 a 6 anos. Esse cenário preocupa, especialmente diante das diretrizes da Sociedade Brasileira de Pediatria, que recomenda restrição total até os 2 anos e limites rígidos de tempo até os 10 anos.

Segundo Anne Baldisseri, diretora da Escola Avenues São Paulo, o entretenimento imediato limita a capacidade de existir e criar. Para a educadora, é nas pausas do cotidiano que surgem as conexões mais profundas com o mundo ao redor.

O impacto das telas no desempenho cognitivo

A ciência endossa a cautela com o ambiente digital. Uma pesquisa publicada no JAMA em outubro de 2025, conduzida por Jason Nagata, da University of California, San Francisco, acompanhou 6.554 adolescentes e revelou um desempenho inferior em leitura, vocabulário e memória naqueles com uso elevado de redes sociais. O padrão de recompensa rápida das telas reduziria, segundo o estudo, o espaço necessário para processos de reflexão profunda.

Daniela Pannuti, diretora do Ensino Fundamental I da Escola Avenues São Paulo, reforça que o desconforto inicial causado pelo ócio é o terreno fértil para a invenção. "É esse desconforto que abre espaço para a invenção e o brincar livre", explica.

Equilíbrio entre produtividade e o ócio

Durante as férias de julho, a pressão por produtividade pode gerar o efeito contrário ao descanso, resultando em sobrecarga mental. Para os especialistas, a rotina ideal inclui atividades simples e sem roteiro, como brincadeiras ao ar livre, leitura e interação social, que permitem à criança organizar seus próprios pensamentos sem depender de estímulos externos constantes.

A recomendação final dos educadores é clara: o "não fazer nada" não deve ser visto como falta de atividade, mas como uma etapa necessária para a saúde emocional e o desenvolvimento da independência infantil.

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