MARKETING MUSICAL VELADO

O novo jabá: como influenciadores ganham para viralizar músicas sem avisar

Ilustração conceitual sobre a viralização de músicas através de influenciadores digitais.
Estratégias de clipagem utilizam influenciadores para forçar o alcance de músicas nas redes sociais.

Agências e artistas utilizam estratégias pagas para simular o sucesso orgânico nas redes sociais, omitindo a natureza comercial do conteúdo.

O sucesso nas plataformas de áudio e redes sociais, que muitos acreditam ser fruto de engajamento espontâneo, tornou-se, na verdade, um produto planejado com estratégias de impulsionamento invisível. Agências especializadas coordenam ações onde influenciadores recebem pagamentos para disseminar músicas, muitas vezes sem a devida sinalização publicitária exigida pelo setor.

A prática, que movimenta o mercado da música, utiliza o chamado "marketing de viralização" para inflar métricas. Victor David, fundador da Rap Marketing, agência que atende nomes como Anitta, Ludmilla, Filipe Ret e Travis Scott, define o método sem rodeios: "Viralizar não é sorte. É método". Segundo ele, é comum que conteúdos pareçam espontâneos no feed ou nos Reels quando, na verdade, fazem parte de uma estratégia de divulgação cuidadosamente desenhada.

Um dos mecanismos mais eficazes é a competição de clipagem. Nesse modelo, influenciadores — frequentemente nano-influenciadores — são incentivados a postar conteúdos diários com um áudio específico. O volume de postagens estimula o algoritmo das redes sociais a entregar a música para um público mais amplo. Aqueles que atingem os melhores números recebem cachês pelo serviço, mas o público, ao consumir o vídeo, não é informado de que se trata de uma peça encomendada.

Essa dinâmica de "jabá" digital estende-se a páginas de nicho, como as de lances de futebol ou vlogs de receitas, que recebem valores para utilizar faixas desconhecidas como trilha sonora de seus posts. Erick Roza, da agência Best Play Music, aponta que são estratégias de marketing sutis, projetadas para serem absorvidas pelo público sem que este perceba a intenção comercial. No cenário do rap e trap, a prática também ocorre via Pix direto para páginas de prévias, conforme explica Bárbara Figueiredo, sócia-fundadora da Disrupsom.

Embora o Guia de Marketing e Publicidade para Influenciadores do Conar estabeleça que qualquer conteúdo com contrapartida deve ser claramente identificado como publicitário, o setor ainda opera em uma zona cinzenta. Para muitos profissionais da indústria, essa omissão não seria "nociva", já que o foco é a promoção da arte. No entanto, a eficácia do modelo é inquestionável: até artistas de alcance global, como Drake, Selena Gomez e a banda Rolling Stones, já utilizaram estratégias de clipagem para impulsionar seus lançamentos.

Apesar da capacidade técnica de fabricar o início de um viral, os especialistas ressaltam que o investimento não garante longevidade. Com orçamentos que variam de R$ 5 mil a R$ 20 mil para campanhas de maior porte, o objetivo principal é colocar a música no radar. Contudo, a retenção do público ainda depende da conexão real entre a obra e o ouvinte. "Você pode aplicar inúmeras estratégias, mas, se a música não tocar as pessoas, ela simplesmente não ganha tração", conclui Victor David.

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