PERSEGUIÇÃO DIGITAL

Homens usam 'tags' de rastreamento para perseguir mulheres, evidenciam casos em SP e Pará

Exemplo de tag de rastreamento Bluetooth, utilizada para perseguir mulheres.
Dispositivos de rastreamento como 'tags' de Bluetooth estão sendo usados de forma indevida para monitorar e perseguir mulheres.

Dispositivos de Bluetooth, antes usados para localizar objetos, agora são ferramentas de controle em relacionamentos pós-término. Aumento de 29,7% em casos de perseguição contra mulheres em São Paulo.

A inovação tecnológica, antes vista como auxílio na localização de objetos perdidos, ganhou um contorno sombrio ao se tornar ferramenta de vigilância e perseguição contra mulheres. Dispositivos de rastreamento por Bluetooth, conhecidos como 'tags', têm sido utilizados por ex-companheiros para monitorar as vítimas após o fim de relacionamentos, conforme revelam investigações em São Paulo e no Pará. Essa prática emerge em um cenário de preocupante escalada da violência contra a mulher.

Os dados do cenário paulista ilustram a gravidade do problema: entre janeiro e abril de 2026, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) de São Paulo registrou 14.589 casos de perseguição contra mulheres, um aumento de 29,7% em comparação com o mesmo período de 2025. Em mais de cinco mil desses registros, os agressores possuíam vínculo amoroso com as vítimas, evidenciando a persistência do controle em relações que deveriam ter chegado ao fim.

A delegada Cristine Costa, titular da 1ª Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de São Paulo, explica que o uso de dispositivos de rastreamento, embora ainda pontual, reflete uma evolução nas táticas de monitoramento empregadas por agressores. "O autor vai criando mecanismos para monitorar a vítima. Quando a gente descobre um, ele migra para outro", afirmou, comparando a conduta a outras formas de violência que se adaptam para manter o controle.

Antes dominada pela perseguição presencial, a violência contra a mulher tem incorporado métodos digitais e tecnológicos. Segundo a delegada, a disseminação de aplicativos espiões deu lugar a dispositivos físicos como as 'tags', que, em casos extremos, foram encontrados escondidos na mochila de crianças ou sob o assoalho de veículos, disfarçados com fita isolante. A motivação alegada por alguns agressores é o suposto monitoramento da segurança dos filhos, uma justificativa recorrente que mascara a intenção de controle.

No Pará, relatos em Belém confirmam a mesma estratégia. Mulheres que buscaram a Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam) denunciaram o monitoramento constante e o assédio após o fim de relacionamentos. Um dispositivo foi descoberto preso magneticamente à parte inferior de um carro. A justificativa apresentada pela defesa em processos judiciais, como o exercício da paternidade e o acompanhamento de filhos com Transtorno do Espectro Autista (TEA), é vista por especialistas como uma tentativa de normalizar comportamentos abusivos e controladores.

A advogada Jamille Saraty, especialista em Direito de Família em Belém, descreve casos em que 'tags' foram escondidas em veículos, evidenciando a má-fé dos ex-parceiros. Ela destaca que a pressão emocional e o uso dos filhos como justificativa são táticas frequentes para manter o controle sobre as ex-mulheres, muitas vezes levando os agressores a contatar terceiros, como clínicas infantis, para obter informações sobre a rotina das vítimas.

Para especialistas, o uso de dispositivos de rastreamento configura o crime de perseguição, popularmente conhecido como stalking. A delegada Cristine Costa alerta que essa conduta abala emocionalmente as vítimas e pode evoluir para violência psicológica, com agravantes quando praticada por meios eletrônicos. Pesquisas como 'Visível e Invisível' e o Anuário Brasileiro de Segurança Pública indicam um aumento alarmante na incidência de perseguição contra mulheres no País, com números que refletem tanto o crescimento da violência quanto uma maior conscientização e busca por ajuda por parte das vítimas.

A orientação para mulheres que desconfiam de monitoramento é clara: preservar evidências como mensagens e prints, realizar verificações em veículos, pertences e objetos dos filhos, e procurar imediatamente uma delegacia de polícia para registrar ocorrência e solicitar medidas protetivas. Essa ação é crucial para interromper o ciclo de violência antes que ele escale para agressões mais graves.

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