SAÚDE MENTAL
Estudo chocante revela que quase 1 em cada 5 universitários enfrenta ideação suicida
Pesquisa inédita das universidades UFF, UFRJ e Uerj aponta que fatores psicossociais, como solidão e otimismo, são cruciais além da depressão. Financiamento FAPERJ e Capes impulsionou a descoberta.
Pesquisadores das universidades Federal Fluminense (UFF), Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) publicaram, nesta sexta-feira, 01/05/2026, resultados que expõem uma realidade alarmante: quase um em cada cinco universitários brasileiros enfrenta ideação suicida. Este estudo pioneiro, que desafia a compreensão tradicional focada apenas na depressão, é um chamado urgente para as instituições de ensino e toda a sociedade repensarem as estratégias de apoio à saúde mental, sublinhando o impacto profundo do sofrimento psíquico na dignidade e no futuro de milhares de jovens.
A sensação de encontrar estudantes universitários deprimidos e angustiados deixou de ser exceção para se tornar parte do cotidiano acadêmico. Embora os casos de suicídio ainda sejam menos frequentes, seu aumento nos últimos anos acendeu um sinal de alerta importante para instituições de ensino e pesquisadores, que agora buscam entender melhor essa complexidade.
A literatura científica tem mostrado consistentemente que depressão e ideação suicida frequentemente caminham juntas. No entanto, essa relação não é absoluta. Pensamentos sobre morrer, sobre pôr fim à própria vida ou ferir-se podem emergir mesmo na ausência de sintomas depressivos intensos. Esse dado, aparentemente paradoxal, revela um ponto crucial: outros fatores, para além da depressão, também participam desse fenômeno complexo e multifacetado.
Foi a partir dessa lacuna no conhecimento que as equipes da UFF, UFRJ e Uerj decidiram investigar, de forma mais ampla, os fatores associados à ideação suicida na comunidade acadêmica brasileira. Os resultados desse esforço acabam de ser publicados no renomado periódico The Lancet Regional Health – Americas, oferecendo uma visão abrangente e necessária sobre o tema.
Muito além da depressão: uma análise integrada do sofrimento
O objetivo central do estudo foi examinar fatores psicossociais de vulnerabilidade e proteção relacionados à ideação suicida, indo além da explicação tradicional centrada apenas na depressão. Para isso, os pesquisadores analisaram diferentes dimensões da experiência humana, como sentimentos de solidão, níveis de otimismo, histórico de maus-tratos emocionais na infância e características demográficas.
Essa abordagem mais integrada permite compreender a ideação suicida não como um fenômeno isolado, mas como resultado de múltiplas influências que se entrelaçam ao longo da vida. Ao fazer isso, o estudo contribui não apenas para o avanço científico, mas também para a criação de estratégias mais eficazes de identificação precoce e prevenção, humanizando a abordagem da saúde mental universitária.
Retrato da comunidade acadêmica
A pesquisa contou com a participação de 3.828 pessoas, recrutadas por meio de e-mails, WhatsApp e redes sociais. A maioria dos respondentes era formada por mulheres (67,63%) e indivíduos brancos (66,74%), com predominância de jovens adultos entre 18 e 39 anos. Todas as informações demográficas foram autorrelatadas, seguindo categorias do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A categoria “negros”, por exemplo, incluiu tanto pessoas pretas quanto pardas.
Além disso, os participantes informaram se já haviam recebido diagnóstico de transtornos mentais, como depressão, ansiedade ou transtorno bipolar. Esses dados ajudaram a compor um panorama mais completo da saúde mental da amostra. O estudo faz parte do projeto PSIcovidA, uma investigação longitudinal sobre saúde mental na comunidade acadêmica brasileira. Ao final da participação, todos os voluntários receberam orientações e contatos para apoio psicológico, reforçando a ética da pesquisa.
Como medir o invisível: tecnologia e saúde mental
Para analisar os dados, os cientistas recorreram a ferramentas de aprendizado de máquina, capazes de identificar padrões complexos em grandes volumes de informação. O modelo escolhido foi o Multiple Kernel Learning (MKL), já utilizado em estudos anteriores e conhecido por sua capacidade de integrar diferentes dados com acurácia e por permitir melhor interpretação dos resultados.
Esse tipo de abordagem permitiu integrar diversas variáveis, que incluíam desde sintomas psicológicos até características demográficas, em um único modelo preditivo. No estudo, foram incluídas medidas de depressão, solidão, otimismo e experiências adversas na infância.
A ideação suicida, por sua vez, foi avaliada por meio de uma pergunta direta sobre pensamentos de morte ou autolesão nas últimas duas semanas. Qualquer resposta diferente de “nenhuma vez” já era considerada um indicativo de risco, seguindo protocolos amplamente utilizados na literatura científica.
Números preocupantes e a complexidade do risco
Os resultados revelaram que 18,86% dos participantes apresentaram ideação suicida, ou seja, quase um em cada cinco pessoas da amostra. Trata-se de um dado expressivo, que reforça a urgência de olhar com mais atenção para a saúde mental nas universidades e entender a extensão do sofrimento oculto.
Os modelos de análise mostraram que é possível distinguir, com boa precisão, indivíduos com e sem ideação suicida. Como esperado, os sintomas depressivos foram os principais preditores. No entanto, eles não contaram toda a história, confirmando que a depressão sozinha não explica a totalidade do fenômeno.
Outros fatores como otimismo, sentimentos de solidão e histórico de maus-tratos emocionais tiveram peso relevante na classificação, respondendo por cerca de metade da explicação do fenômeno, ressaltando a importância de uma visão holística.
Dor e esperança: o equilíbrio entre risco e proteção
Um dos achados mais interessantes diz respeito ao papel do otimismo. Diferentemente dos fatores de risco, ele apareceu com peso negativo no modelo — ou seja, quanto maior o nível de otimismo, menor a probabilidade de ideação suicida.
Esse resultado sugere que o otimismo funciona como um importante fator de proteção, oferecendo uma luz de esperança. Pessoas que tendem a enxergar o futuro de forma mais positiva parecem estar mais protegidas contra pensamentos suicidas, mesmo diante de dificuldades, evidenciando o poder da resiliência e da perspectiva positiva.
Essas conclusões dialogam com a chamada teoria dos três passos do suicídio, que propõe que a ideação suicida surge da combinação entre dor psicológica e desesperança. Nesse contexto, fatores como solidão e maus-tratos emocionais na infância contribuem para a dor, enquanto o otimismo atua como um amortecedor contra a desesperança, fortalecendo a capacidade de superação.
Marcas da infância que atravessam o tempo
Outro ponto relevante foi o impacto dos maus-tratos emocionais na infância. Experiências como abuso e negligência emocional responderam por cerca de 22% do peso total no modelo. Um valor expressivo e preocupante, que destaca a persistência dessas feridas emocionais.
Esses achados reforçam evidências já conhecidas: vivências adversas na infância podem deixar marcas duradouras na saúde mental. Em nosso estudo, sentimentos como “ter sido uma criança indesejada” ou “ter sofrido abuso emocional” estiveram fortemente associados à ideação suicida.
Mesmo quando os sintomas depressivos são considerados, essas experiências continuam exercendo influência, mostrando que o passado emocional pode moldar profundamente a forma como lidamos com o sofrimento no presente e a importância do acolhimento desde cedo.
Solidão: o risco silencioso
A solidão também apareceu como um fator relevante, ainda que com peso moderado. A sensação de falta de companhia, mais do que o isolamento físico em si, foi um dos indicadores mais importantes, sublinhando a dimensão subjetiva desse sofrimento.
Estudos anteriores já apontam que a solidão está associada à ideação suicida em diferentes populações, inclusive entre estudantes brasileiros. Ela pode intensificar o sofrimento emocional e aumentar a sensação de desconexão, tornando o indivíduo mais vulnerável a pensamentos destrutivos.
Ao mesmo tempo, a solidão desperta o desejo de pertencimento — um paradoxo que evidencia a importância de estratégias que fortaleçam vínculos sociais e reduzam o sentimento de ser um fardo para os outros, oferecendo um senso de comunidade e acolhimento.
O que fazer com esses achados?
Os resultados do estudo apontam para uma conclusão clara: não é suficiente olhar apenas para a depressão ao avaliar o risco de ideação suicida. É preciso adotar uma abordagem mais ampla, que considere múltiplos fatores emocionais, sociais e biográficos para um entendimento completo.
Isso tem implicações diretas para políticas de saúde mental nas universidades. Protocolos de rastreamento mais completos, intervenções que promovam otimismo e pertencimento, e ações de apoio psicológico podem fazer a diferença na vida de muitos estudantes, reforçando a dignidade e a esperança.
Ao mesmo tempo, é importante reconhecer os limites do estudo. As principais são o delineamento transversal, que impede estabelecer relações causais diretas, e a limitada generalização dos achados, em função da amostra acadêmica e do contexto específico da pandemia. Além disto, a maioria das pesquisas ainda se concentra em países de alta renda, e os resultados podem variar em diferentes contextos culturais. Portanto, investigar a realidade brasileira representa um passo fundamental e urgente.
No fim das contas, o que este estudo revela é algo profundamente humano: o sofrimento psíquico não tem uma única causa. E, portanto, também não terá uma única solução. Compreender a ideação suicida exige escutar histórias, reconhecer vulnerabilidades e, sobretudo, identificar caminhos de proteção. Entre eles, talvez um dos mais poderosos seja justamente aquele que o estudo destacou: a capacidade de ainda esperar que coisas boas possam acontecer, a chama do otimismo que se recusa a apagar.
A pesquisa que provocou este artigo contou com financiamento da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
*Orlando Fernandes Junior recebe financiamento da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ).
*Arthur V. Machado recebe financiamento da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ).
*Letícia de Oliveira recebe financiamento da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
*Liana Portugal recebe financiamento da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ).
*Mirtes Garcia Pereira recebe financiamento da FAPERJ, CNPq e CAPES
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