DIAGNÓSTICO PRECOCE
Esclerose Múltipla: Diagnóstico antecipado evita sintomas e sequelas
Novos critérios e exames avançados permitem identificar a doença antes mesmo do surgimento de sinais, melhorando o prognóstico e a qualidade de vida dos pacientes.
A esclerose múltipla é a condição neurológica mais comum em adultos jovens, afetando 2,9 milhões de pessoas no mundo e cerca de 40 mil no Brasil. Nesta sábado, 30 de maio de 2026, marca-se o Dia Mundial da Esclerose Múltipla, data que, desde 2024, direciona campanhas para a importância do diagnóstico precoce e preciso, visando garantir tratamentos eficazes.
Sob o lema “My MS Diagnosis: navigating MS together”, a iniciativa alinha-se às diretrizes mais recentes para o diagnóstico. Em 2024, uma revisão dos “Critérios de McDonald” foi anunciada, atualizando os parâmetros de 2017 para detecção e tratamento da doença. Divulgadas oficialmente em 2025, no periódico The Lancet Neurology, as mudanças integram novos marcadores para aumentar a precisão dos exames, facilitando o início antecipado do tratamento. O objetivo é prevenir o surgimento de sintomas e sequelas, conforme explica o neurologista Herval Ribeiro Soares Neto, do Einstein Hospital Israelita.
A esclerose múltipla é uma doença autoimune na qual o sistema de defesa ataca a bainha de mielina, camada protetora dos neurônios essencial para a transmissão de impulsos nervosos. Essa agressão provoca inflamação e lesões em áreas cruciais como o nervo óptico, medula e cerebelo, resultando em sintomas variados como perda visual, vertigem, desequilíbrio, e dificuldades motoras.
Em aproximadamente 80% dos casos, a doença manifesta-se em surtos, com duração de semanas e potencial de melhora espontânea. Contudo, a recuperação completa das funções afetadas nem sempre ocorre, dependendo da capacidade de remielinização do organismo. Em situações mais severas, os sintomas podem progredir continuamente.
O diagnóstico baseia-se na avaliação clínica, histórico do paciente, exames de imagem — com destaque para a ressonância magnética de crânio e coluna — e análise do líquor. A presença de lesões características em regiões específicas do cérebro e o aumento de marcadores específicos no líquido cefalorraquidiano são fundamentais para a confirmação.
A análise abrange o número e a localização das lesões, a presença de marcadores como bandas oligoclonais e características específicas das lesões. Tecnologias avançadas em ressonância magnética aprimoram a visualização detalhada dessas alterações, enquanto exames de líquor, obtido por punção lombar, identificam biomarcadores precisos. “A qualidade desses exames faz a diferença para um diagnóstico mais correto e precoce”, assegura Soares Neto.
Uma novidade na revisão dos critérios diagnósticos é o reconhecimento do nervo óptico como uma nova região típica para lesões, somando-se às áreas periventricular, justacortical/cortical, infratentorial e medula espinhal.
Outra mudança significativa é a possibilidade de diagnosticar indivíduos com lesões detectadas em exames de imagem que preenchem os critérios para esclerose múltipla, mesmo sem manifestação de sintomas. Anteriormente classificados como portadores de síndrome radiológica isolada, esses pacientes agora podem iniciar tratamento preventivo. “Isso é importante porque podemos começar a tratar a doença antes que ela se manifeste, melhorando o prognóstico”, ressalta a neurologista Ana Cláudia Piccolo, da Academia Brasileira de Neurologia (ABN).
Apesar dos avanços, mais de 80% dos países enfrentam desafios no diagnóstico precoce, segundo o Atlas da Esclerose Múltipla de 2021. A falta de conscientização sobre os sintomas, a escassez de profissionais especializados e a limitada disponibilidade de equipamentos contribuem para o cenário.
Muitos pacientes convivem por anos com sintomas difusos como fadiga, desequilíbrio ou visão turva, buscando ajuda em diversas especialidades médicas antes de chegar ao neurologista. “A porta de entrada costuma ser o ortopedista, o otorrino ou o oftalmo”, relata Piccolo. Em alguns casos, o diagnóstico ocorre em investigações para outras condições, como enxaquecas ou traumatismos cranianos.
Tratamento individualizado e eficaz
O tratamento da esclerose múltipla é personalizado, considerando as características da doença, a presença de lesões, o estilo de vida do paciente e a existência de comorbidades. “A evolução do tratamento permitiu maior eficácia, com menos chance de novos surtos e novas lesões no cérebro e na medula”, destaca Herval Soares Neto, mencionando a capacidade dos medicamentos modernos de agir de forma focada no sistema imunológico.
Atualmente, o tratamento de alta eficácia oferece mais de 90% de chance de evitar novas lesões inflamatórias. Com mais de dez opções terapêuticas, incluindo imunomoduladores e imunossupressores, disponíveis por via endovenosa ou oral, é possível controlar a progressão da doença.
Em abril, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o ublituximabe (Briumvi), um anticorpo monoclonal que inibe o ataque dos linfócitos à bainha de mielina. “É um tratamento de uma classe que já existe no mercado, mais uma alternativa”, comenta Soares Neto.
“Não existe um protocolo único, uma receita de bolo, o tratamento é individualizado”, reforça o neurologista. “Mas com tratamento de alta eficácia, é possível silenciar a doença por décadas.”
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