RISCO À SAÚDE

Anvisa julga recurso da Ypê após intoxicação de criança no RN

Imagem de um frasco de detergente da Ypê, de um lote com final 1, que a família de uma criança internada por intoxicação afirma ter utilizado.
Detergente da Ypê de lote investigado, utilizado pela criança internada, segundo a família. (Arquivo Pessoal)

Decisão sobre lotes suspeitos de detergente afeta segurança dos consumidores. Família de Natal aguarda exames da menina internada, com resultado previsto em até três dias.

A segurança dos produtos de limpeza no Brasil está sob intensa análise, com o julgamento crucial do recurso da Ypê pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) ocorrendo nesta sexta-feira, 15 de maio de 2026. A deliberação sobre a suspensão de lotes de lava-louças, lava-roupas e desinfetantes ganha contornos dramáticos diante do caso de uma criança internada em Natal, no Rio Grande do Norte, cuja família associa os sintomas de intoxicação ao uso de um detergente da marca, pertencente a um dos lotes investigados. A decisão da ANVISA, motivada por graves irregularidades nas Boas Práticas de Fabricação que podem levar à contaminação microbiológica, ressalta a urgência de garantir a proteção da saúde e a dignidade dos consumidores em todo o país.

A CNN Brasil apurou que a família da criança apresentou o frasco de um detergente da Ypê na unidade de saúde, comprovando que o produto pertencia a um lote com numeração final 1, exatamente um dos grupos sob suspeita.

O tio da criança detalhou à reportagem que a mãe adquiriu o detergente em 4 de maio. No dia 5 de maio, o produto foi utilizado em casa. Em 6 de maio, a criança manifestou manchas atrás da orelha e em uma das mãos enquanto estava na escola, o que exigiu atendimento médico imediato.

“Como já havia uma nota sobre possível bactéria em produtos da Ypê, fizemos a associação. Não estamos confirmando nada, aguardamos os resultados dos exames”, declarou o familiar, expressando a angústia da família.

O familiar forneceu uma imagem do produto da Ypê, com lote final 1, que a criança utilizou.

A Sesap (Secretaria de Estado da Saúde Pública) do Rio Grande do Norte esclareceu, em nota, que a fiscalização de produtos com suspeita de contaminação na capital, Natal, é de competência da Vigilância Sanitária Municipal. Nos demais municípios, a responsabilidade recai sobre a Suvisa (Sistema de Informação em Vigilância Sanitária).

A criança enfrentou oito dias intensos de tratamento, conforme relatou o parente, com a administração de adrenalina e medicamentos antialérgicos, antes de ser transferida para um hospital de referência com suporte mais especializado. Esse período demonstra o grau de sofrimento imposto à pequena paciente e sua família.

“Foram oito dias de uma verdadeira luta, com adrenalina, anti-alérgico. Aparentemente ela está melhor, mas a intoxicação se manifesta constantemente”, desabafou o familiar, revelando a persistência dos sintomas.

Nesta semana, a equipe médica coletou amostras para análise laboratorial. A expectativa da família e dos profissionais é que o resultado desses exames, cruciais para o diagnóstico definitivo, seja divulgado em até três dias.

Lotes Sob Investigação e o Recurso da Ypê

Na semana passada, a ANVISA determinou o recolhimento do mercado dos lotes com numeração final 1 das categorias lava-louças, lava-louças concentrado, lava-roupas líquidos e desinfetantes da Ypê. A agência também suspendeu a fabricação, comercialização, distribuição e venda desses produtos, em uma medida que impacta diretamente a disponibilidade de itens essenciais para milhões de lares.

A ANVISA tomou essa decisão após uma inspeção rigorosa identificar irregularidades em etapas cruciais da produção, as quais poderiam resultar em contaminação microbiológica dos produtos. É justamente este recurso da Ypê contra a resolução que a diretoria colegiada da ANVISA avalia e decide nesta sexta-feira, 15 de maio de 2026, definindo os próximos passos do caso.

Durante a inspeção, que ocorreu entre 27 e 30 de abril de 2026, a ANVISA, em colaboração com o CVS-SP (Centro de Vigilância Sanitária de São Paulo) e a Vigilância Sanitária de Amparo, identificou um total alarmante de 76 irregularidades na empresa.

Entre as falhas apontadas, destacam-se problemas nos sistemas de controle de qualidade e na garantia sanitária. A agência reguladora enfatizou que essas ocorrências configuram um descumprimento das regras de Boas Práticas de Fabricação, elevando o risco de contaminação dos produtos e, consequentemente, a ameaça à saúde pública.

A Ypê apresentou seu recurso administrativo contra a resolução em 8 de maio de 2026. A partir daquele momento, a decisão inicial da ANVISA obteve efeito suspensivo, aguardando a análise da Diretoria Colegiada da agência, processo que culmina hoje.

Apesar de conseguir a suspensão temporária da medida, a Ypê optou por manter paralisadas as linhas de produção de sua fábrica de líquidos, responsáveis pelos produtos em questão. Essa atitude, embora voluntária, demonstra a seriedade com que a empresa encara as acusações.

Contudo, em 13 de maio de 2026, a diretoria colegiada da ANVISA removeu o julgamento do recurso da pauta. Leandro Pinheiro Safatle, diretor-presidente da ANVISA, garantiu que a avaliação e deliberação sobre o tema seriam retomadas pelo colegiado na sexta-feira seguinte, 15 de maio de 2026, confirmando a importância do tema para a agenda da agência.

“A empresa detalhou os investimentos já feitos, intensificou os esforços para se adequar às irregularidades e prometeu apresentar novas medidas corretivas em 14 de maio de 2026, buscando cumprir as determinações sanitárias”, declarou Leandro Pinheiro Safatle. Ele reforçou um apelo fundamental à população: “Assim, reiteramos [aos consumidores] a não utilização dos produtos listados na resolução e de buscar o Serviço de Atendimento ao Consumidor da empresa para orientações”.

A ANVISA mantém a orientação crucial para que todos os consumidores que possuam produtos dos lotes afetados interrompam imediatamente o uso. A recomendação é procurar o Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC) da Ypê para obter informações sobre o recolhimento ou a substituição dos itens, visando evitar quaisquer riscos à saúde.

Em contato com a CNN Brasil, a Ypê assegurou que permanece em “colaboração máxima” com a ANVISA e que apresentou uma atualização detalhada do plano de ação referente ao seu processo fabril, buscando demonstrar seu compromisso com a regularização.

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