Vereadora propõe “Lei Felca” em Natal para combater crimes sexuais contra crianças no ambiente digital

Vereadora propõe “Lei Felca” em Natal para combater crimes sexuais contra crianças no ambiente digital
FOTO: FRANCISCO DE ASSIS
FOTO: FRANCISCO DE ASSIS

A Câmara Municipal de Natal vai começar a discutir nos próximos dias um projeto que, se aprovado, vai instituir na capital potiguar a chamada Lei Felca de Combate à Cyberpedofilia. A proposta é de autoria da vereadora Thabatta Pimenta (Psol) e estabelece políticas específicas para prevenção, repressão e combate à exploração sexual de crianças e adolescentes no ambiente virtual.

O projeto é apresentado após a repercussão de um vídeo publicado no YouTube pelo influenciador Felca que atingiu 40 milhões de visualizações em uma semana. Em quase 50 minutos de vídeo, Felca denunciou casos de exposição e sexualização precoce de crianças em plataformas digitais, prática que ele relaciona à busca por engajamento e monetização de conteúdos. Na gravação, Felca alerta para os riscos dessa exposição, critica a falta de moderação das redes sociais e defende maior responsabilidade das plataformas e dos criadores de conteúdo na proteção do público infantil.

O texto sugerido por Thabatta define “cyberpedofilia” como a prática de crimes sexuais contra crianças e adolescentes por meio da internet ou outros recursos digitais, incluindo “estupro de vulnerável, com premeditação em espaços virtuais”, “corrupção de menores”, “adultização de crianças ou adolescentes” e a “produção, divulgação, comercialização, distribuição, posse ou consumo de imagens, vídeos ou quaisquer outros conteúdos de natureza sexual envolvendo crianças ou adolescentes”.

Também estão contemplados o aliciamento, o assédio e a tentativa de contato para fins de exploração sexual, inclusive com marcação de encontros por meio de redes sociais, aplicativos de mensagens, e-mails e jogos on-line.

O que o projeto prevê?

A proposta fixa ações de prevenção por meio de “educação digital segura e campanhas de conscientização” voltadas para crianças, adolescentes, famílias e profissionais, bem como a atuação integrada de órgãos municipais, estaduais e federais para coibir e punir esse tipo de crime.

Entre as diretrizes estão “garantir a proteção integral e prioritária das crianças e adolescentes”, “assegurar a existência e divulgação ampla de canais seguros, acessíveis e sigilosos para denúncias” e “garantir atendimento humanizado, sigiloso e multidisciplinar às vítimas, com suporte social, psicológico e jurídico”.

Para implementar essas diretrizes, o município poderá desenvolver campanhas educativas, promover formação continuada para servidores, estimular parcerias com entidades públicas e privadas, divulgar canais de denúncia como o Disque 100, implementar programas de atendimento multidisciplinar e realizar monitoramento contínuo das ações.

O texto também determina que espaços de uso coletivo – como órgãos públicos, escolas, unidades de saúde e estabelecimentos privados de acesso ao público – comuniquem imediatamente às autoridades competentes qualquer episódio de cyberpedofilia ocorrido em suas dependências.

Dados

A proposta vem acompanhada de uma justificativa que apresenta dados recentes sobre o problema. De acordo com a SaferNet Brasil, em 2024 foram registradas 71.867 denúncias de imagens de abuso e exploração sexual infantil na internet, o maior volume desde 2006. O Brasil ficou em quinto lugar no ranking mundial desse tipo de crime. No Rio Grande do Norte, as violações sexuais contra crianças e adolescentes no ambiente virtual cresceram 24% entre 2020 e 2023, segundo a Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos. O Disque 100 recebeu, em 2024, 559 denúncias relacionadas ao estado, o que representa uma estimativa de mais de 1.298 violações reais.

O projeto também destaca que os casos de estupro de vulnerável aumentaram de 707 registros em 2022 para 968 em 2023 no RN, um crescimento de 36,9%. Para Thabatta Pimenta, a realidade exige que o município atue “além da mera repressão”, priorizando ações preventivas e educativas. A parlamentar afirma que, embora já exista o Plano Municipal de Combate à Pedofilia (Lei nº 7.737/2024), “tal legislação não aborda de maneira explícita e estruturada a ciberpedofilia”.

O que diz a vereadora

Na justificativa, Thabatta Pimenta defende que a regulamentação das redes sociais é “medida indispensável” para responsabilizar plataformas pela veiculação de conteúdos abusivos e incentivar políticas de moderação mais rigorosas. Para a vereadora, essa regulação “não deve ser encarada como uma forma de censura, mas como um imperativo de proteção aos direitos fundamentais de uma população vulnerável”.

O Conselho Tutelar é apontado como peça estratégica na rede de proteção proposta, atuando como porta de entrada para encaminhar casos detectados no ambiente virtual. A proposta prevê a divulgação permanente do Disque 100 e campanhas informativas para ampliar o número de denúncias e combater a impunidade.

Alinhada a Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, como o ODS 16 (Paz, Justiça e Instituições Eficazes) e o ODS 4 (Educação de Qualidade), a Lei Felca busca integrar políticas públicas municipais à agenda global de direitos humanos. A autora argumenta que a aprovação representará “um compromisso efetivo do Município de Natal com a construção de um ambiente seguro para suas crianças e adolescentes, dentro e fora do universo digital”.

O texto agora segue para análise nas comissões temáticas da Câmara Municipal antes de ser votado em plenário. Caso aprovado, o Executivo terá 90 dias para regulamentar a lei e colocar as ações em prática.

Agora RN

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