INVESTIGAÇÃO

PF aponta elo suspeito entre MC Ryan SP, Deolane Bezerra e Instituto Neymar Jr. em lavagem de dinheiro

Imagem da influenciadora Deolane Bezerra, em contexto de investigação da PF sobre lavagem de dinheiro.
A influenciadora Deolane Bezerra, cujas movimentações financeiras são alvo de investigação da Polícia Federal na Operação Narco Fluxo.

Influenciadora é suspeita de "limpeza de imagem" em movimentações de R$ 5,3 milhões; investigação segue.

A Polícia Federal (PF) aponta uma intrincada teia de movimentações financeiras suspeitas envolvendo o funkeiro MC Ryan SP, a influenciadora Deolane Bezerra e o Instituto Projeto Neymar Jr., revelada nesta sexta-feira, 17 de abril de 2026. As suspeitas surgem no bojo da Operação Narco Fluxo, que levou à prisão de MC Ryan SP na última quarta-feira, 15 de abril de 2026, e visam desvendar um esquema bilionário de lavagem de dinheiro. Para a PF, Deolane teria atuado como uma "conta de passagem" e efetuado doações estratégicas à ONG do jogador como parte de uma "limpeza de imagem", o que acende um alerta sobre a integridade e transparência das transações financeiras no meio de celebridades e influenciadores.

As investigações da PF identificaram que Deolane movimentou expressivos R$ 5,3 milhões em apenas 47 dias, entre 14 de maio e 30 de junho de 2025. Durante esse período, a influenciadora recebeu R$ 430 mil da produtora de MC Ryan SP e, na sequência, transferiu R$ 1,16 milhão ao Instituto Projeto Neymar Jr., além de destinar outros R$ 1,1 milhão a uma empresa de blindagem de veículos. É importante ressaltar que, até o momento, o jogador Neymar e seu Instituto não são considerados alvos diretos desta fase da Operação Narco Fluxo.

MC Ryan SP foi detido na última quarta-feira, 15 de abril de 2026, como parte da Operação Narco Fluxo, onde enfrenta acusações de chefiar e ser o principal beneficiário de um esquema bilionário de lavagem de dinheiro. Além dele, a ação da PF resultou na prisão de outros 32 alvos, incluindo figuras conhecidas como Marlon Brendon Coelho Couto Silva, o MC Poze do Rodo, Raphael Sousa Oliveira, proprietário da página Choquei, e o casal de influenciadores Chrys Dias e Débora Paixão. A amplitude das prisões demonstra a capilaridade do suposto esquema.

Conexões Financeiras Suspeitas

Sobre a transferência de R$ 430 mil da produtora de MC Ryan SP para Deolane, a PF argumenta que "há indícios de que esta transação configure uma evidência material do vínculo financeiro direto entre os dois investigados, demonstrando que o fluxo de caixa da produtora de Ryan, suspeita de misturar receitas de shows com recursos de apostas e rifas, irriga também as contas de aliados estratégicos que enfrentam investigações similares por lavagem de dinheiro e associação criminosa". A análise policial conclui que a transação "não aparenta ter justificativa comercial ordinária de prestação de serviços, mas robustece a tese de que Deolane e MC Ryan SP compartilham um ecossistema financeiro comum".

A influenciadora Deolane Bezerra já havia sido presa em setembro de 2024, em Recife, Pernambuco, sob acusações de envolvimento em um esquema de lavagem de dinheiro e apostas ilegais, sendo liberada dias depois. O relatório de inteligência da PF destaca que o recebimento de recursos da MC Ryan SP Produção "reforça a suspeita de que os capitais ilícitos circulam livremente entre as pessoas jurídicas e físicas do grupo para serem integrados na economia formal".

Em relação às transferências da influenciadora para o Instituto Projeto Neymar Jr. e a empresa de blindagem, a PF interpreta essas operações como estratégias de "limpeza de imagem". "Essas operações sugerem o uso da liquidez financeira para aquisição de bens de alto valor e ações de limpeza de imagem", aponta um trecho da representação policial, indicando uma tentativa de legitimar os recursos.

Os investigadores também notaram um padrão incomum no fluxo financeiro da conta de Deolane, onde altos valores são creditados e debitados quase imediatamente, numa tática que pode dificultar o rastreio e a origem final dos recursos, sugerindo uma circulação contínua para evitar a identificação de saldos estáticos. Essa dinâmica financeira levanta sérias questões sobre a transparência e a legalidade das movimentações.

A equipe do Metrópoles buscou contato com a influenciadora e sua defesa para obter um posicionamento, mas não houve retorno até a publicação desta reportagem. O espaço permanece aberto para manifestações.

Detalhes da Operação Narco Fluxo

  • Mais de 200 policiais federais participaram da operação, cumprindo 45 mandados de busca e apreensão e 39 de prisão temporária. As ordens foram expedidas pelo Juiz Roberto Lemos dos Santos Filho, da 5ª Vara Federal de Santos.
  • A ação policial se estendeu por nove estados e o Distrito Federal, incluindo São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Espírito Santo, Maranhão, Santa Catarina, Paraná e Goiás, demonstrando a vasta rede investigada.
  • A PF estima que o volume financeiro movimentado pelo grupo criminoso ultrapasse a marca de R$ 260 bilhões. Além de armas, veículos de luxo e dinheiro em espécie, foram apreendidos documentos e equipamentos eletrônicos que serão cruciais para o avanço das investigações.
  • Entre os alvos detidos na operação estavam os funkeiros MC Ryan SP e MC Poze do Rodo, além de Raphael Sousa, proprietário da influente página Choquei.
  • A Justiça determinou o bloqueio de até R$ 2,2 bilhões em bens pertencentes a MC Ryan SP.
  • O bloqueio foi estendido a 77 alvos da PF, abrangendo tanto empresas quanto pessoas físicas, evidenciando a complexidade da rede de lavagem.
  • A decisão judicial para o bloqueio foi calculada com base no lucro estimado dos crimes, que inclui o tráfico internacional de mais de três toneladas de cocaína, somado ao fluxo financeiro identificado nos relatórios de inteligência financeira encaminhados pelo Coaf.
  • Medidas de constrição patrimonial, como o sequestro de bens e a imposição de restrições societárias, foram determinadas com o objetivo de interromper as atividades ilícitas e preservar ativos para um eventual ressarcimento aos cofres públicos.
  • As investigações prosseguem, e os envolvidos podem responder pelos crimes de associação criminosa, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. As decisões são passíveis de recurso.

Envolvidos Se Manifestam

Em nota oficial, a defesa de MC Ryan SP informou que ainda não teve acesso completo ao procedimento, mas reiterou a confiança de que os esclarecimentos a serem prestados demonstrarão a verdade dos fatos. "Ressalta-se, contudo, a absoluta integridade de MC Ryan, bem como a lisura de todas as suas transações financeiras. Todos os valores que transitam por suas contas possuem origem devidamente comprovada, sendo submetidos a rigoroso controle e ao regular recolhimento de tributos, o que sempre foi observado de maneira contínua e responsável", afirmou a defesa.

Os advogados de MC Poze do Rodo declararam desconhecer o teor dos autos ou do mandado de prisão. "Com acesso aos mesmos, a defesa se manifestará na Justiça para restabelecer sua liberdade e prestar os devidos esclarecimentos ao Poder Judiciário", informou o comunicado.

A defesa de Raphael Sousa, proprietário da Choquei, esclareceu em nota que "seu vínculo com os fatos investigados decorre, exclusivamente, da prestação de serviços publicitários por meio de sua empresa, responsável pela comercialização de espaço de divulgação digital. Os valores por ele recebidos referem-se a serviços efetivamente prestados de publicidade e marketing, atividade lícita e regularmente exercida há anos". O advogado Pedro Paulo de Medeiros acrescentou que "Raphael não integra organização criminosa, não participou de qualquer esquema ilícito e jamais exerceu função diversa da veiculação publicitária contratada".

Por fim, a defesa de Chrys Dias e Débora Paixão comunicou que, devido ao processo correr sob segredo de Justiça, as manifestações ocorrerão apenas nos autos. "Repudiamos os vazamentos de imagens que violaram a privacidade da família e a presunção de inocência, reiterando nossa confiança na Justiça", concluiu a nota.

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