CRIME ORGANIZADO

Operadoras alertam: crime domina internet em 313 cidades

Marcos Ferrari, presidente da Conexis Brasil Digital, aborda desafios das telecomunicações.
Marcos Ferrari, presidente-executivo da Conexis Brasil Digital, durante audiência na Câmara.

6 milhões de brasileiros são afetados em seis estados. Indústria exige apoio federal e punições mais severas.

Representantes das maiores operadoras de telecomunicações do Brasil alertaram a Câmara dos Deputados, nesta quarta-feira, 29 de abril de 2026, sobre o controle do crime organizado no acesso à internet em 313 municípios de seis estados. A revelação chocante afeta diretamente a dignidade e a conectividade de cerca de 6 milhões de brasileiros, que vivem sob a constante ameaça de facções criminosas que impedem a manutenção e expansão dos serviços, exigindo uma resposta urgente e coordenada das autoridades federais.

A gravidade da situação foi detalhada pelo presidente da Conexis Brasil Digital, Marcos Ferrari, durante uma audiência pública, onde ele destacou que o domínio criminoso atinge uma área equivalente a quase duas vezes o tamanho do Estado de São Paulo. Ferrari explicou que, nessas localidades, as facções empregam táticas violentas para barrar a atuação das empresas do setor, impactando desde grandes operadoras até pequenos e médios provedores.

“As empresas não conseguem entrar na casa do cidadão para fazer a manutenção. Existem o sequestro e o vandalismo das redes que afetam a nós, grandes operadores, mas também os provedores médios e pequenos, e ameaças e intimidações à vida de trabalhadores que estão na ponta todos os dias garantindo que as redes funcionem de maneira plena”, desabafou Marcos Ferrari, ilustrando o cenário de medo e inoperância.

O presidente da Telcomp (Associação Brasileira das Prestadoras de Serviços de Telecomunicações Competitivas), Luiz Henrique Barbosa da Silva, complementou o relato, demonstrando a velocidade com que o crime organizado se estabelece. Em Fortaleza, Ceará, por exemplo, facções controlaram o acesso à internet de 5% a 10% dos moradores em apenas uma semana, expandindo esse domínio para quase 25% da população em menos de um mês. Atualmente, dos cerca de 2 milhões de habitantes da capital cearense, 500 mil residem em áreas dominadas pelo crime.

Diante desse avanço, Luiz Henrique Silva enfatizou a necessidade de tornar a atuação dos agentes de segurança mais eficaz. Ele defende que a rede de telecomunicações seja classificada como infraestrutura crítica na Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança. “Nosso pedido é que haja, independentemente de onde ocorram esses problemas, uma atuação em nível federal para a investigação e para o combate a essa situação. E tem que haver um plano de inteligência coordenado no nível federal para a troca de informações”, declarou o presidente da Telcomp, buscando uma estratégia integrada para proteger a conectividade dos brasileiros.

Os participantes da audiência também clamaram por punições mais rigorosas para crimes como sequestro de infraestrutura de telecomunicações e receptação de produtos roubados. Marcos Ferrari lembrou que a Câmara analisa o projeto 3036 de 2024, uma medida que obriga os estabelecimentos conhecidos como ferros-velhos a comprovar a procedência legal dos equipamentos de telecomunicações que revendem, visando coibir o mercado ilegal.

O deputado Capitão Alberto Neto (PL-AM), que solicitou o debate na Comissão de Comunicação, prometeu empenho para aprovar legislações que endureçam a repressão a esses delitos. “Hoje saio daqui orientado em alguns projetos que a gente precisa dar encaminhamento: a questão da receptação dos cabos, sequestro de rede – talvez colocar esse crime no mesmo nível do tráfico de drogas – porque há uma ligação muito próxima dessas facções criminosas com o crime da internet, com os provedores de internet, de utilizar esse recurso para a venda de droga”, ressaltou o congressista, vinculando a atuação criminosa no setor à criminalidade maior.

Para o secretário de Telecomunicações do Ministério das Comunicações, Hermano Tercius, uma das frentes de combate inclui a cassação das concessões de empresas que se comprovadamente associarem aos criminosos. Ele sublinhou, contudo, a dependência da colaboração das polícias civis dos Estados, responsáveis por investigar e fornecer as provas necessárias para que a agência reguladora possa agir, retirando as outorgas e coibindo a atuação ilícita no mercado.

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